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domingo, 1 de dezembro de 2013

As escolas primárias dos Olivais em meados do século XIX

Corria o ano de 1862 quando o Governo Civil de Lisboa realizou um inquérito ao estado da instrução primária no respetivo Distrito. Neste, fica-se a saber que na freguesia de Santa Maria dos Olivais, à época pertencente ao concelho homónimo, funcionavam 4 estabelecimentos de ensino primário: 2 estatais e destinados exclusivamente ao sexo masculino e 2 particulares repartidos entre o sexo masculino e o sexo feminino.

O resultado era uma população escolar muito desequilibrada em termos de género, visto que 93 rapazes olivalenses frequentavam o ensino primário, mas apenas 23 raparigas tinham o mesmo privilégio. A população escolar da freguesia 116 alunos num total de cerca de 2.000 habitantes, não existindo qualquer estabelecimento de ensino secundário no concelho.

A generalidade das escolas primárias oitocentistas, públicas ou privadas, estavam muito longe da ideia que hoje temos do ensino primário. Algumas não tinham edifício próprio, funcionando em espaços adaptados ou mesmo na residência particular do professor; os alunos eram, frequentemente, agrupados numa mesma sala não obstante estarem fases diferentes do seu percurso escolar; os horários e o calendário escolar eram totalmente diferentes do atual.

A julgar pelas conclusões do inquérito, as duas escolas públicas primárias dos Olivais, administradas pela Câmara Municipal, encontravam-se em boas condições. Os seus 67 alunos dirigiam-se a um edifício próprio - ao número 180 do Rossio dos Olivais ou ao número 663 do Poço Bispo -, onde encontravam mobiliário adequado, embora o papel e a tinta - à semelhança de hoje em dia - fossem fornecidos pelos próprios alunos. Em caso de impossibilidade devido a alguma situação de pobreza, o professor estava incumbido de suportar todos os custos com material.   

O mais curioso no funcionamento destas escolas - e que reflete a forma diferente como se encarava o ensino no século XIX e na atualidade - são as idades dos alunos. Estas variavam entre os 6 e os 14 anos, mostrando as frequentes interrupções do percurso escolar devido a questões laborais ou a entrada tardia no sistema de ensino, fruto da pouca utilidade que este, à primeira vista, poderia ter para uma população essencialmente rural ou de operários desqualificados.

Já as escolas privadas - situadas, novamente, no Rossio dos Olivais e na Rua Nova* - funcionavam em residências particulares. A escola feminina era suportada totalmente pelo benemérito Ricardo Lambert, e dirigida por Maria do Bonfim, apesar desta não possuir autorização oficial para o fazer. O programa de ensino, além do habitual ensinar a «ler, escrever e contar», incluía também «doutrina cristã» e uma disciplina de «cozer». O inquérito, infelizmente, não discrimina quais os manuais desta escola, pelo que é impossível comparar com a sua congénere masculina. 

Nesta, dirigida por António José da Cunha, também ele sem autorização para o fazer, usavam-se os manuais de Monteverde, de Montpellier, do Abáde de Salamonde e a História Sagrada.

Comum a todas as escolas, públicas ou privadas, masculinas ou femininas, era o Compêndio do Novo Sistema Métrico Decimal, fornecido, aliás, pelo próprio Administrador do Concelho.   

Adotado oficialmente em Dezembro de 1852, tendo sido tornado de uso exclusivo e obrigatório a partir de 1 de Janeiro de 1860, na verdade utilização do sistema de pesos e medidas de Antigo Regime prolongou-se no tempo, mesmo apesar das multas a que estavam sujeitos todos aqueles que não utilizassem o novo sistema métrico-decimal.

Cientes do problema que isso acarretava para o quotidiano das populações, as autoridades portuguesas empreenderam um grande esforço para fazer triunfar o novo método de medir e pesar. O ensino foi, como seria de esperar, um dos seus principais campos de batalha.  

* A Rua Nova, no sítio da Aldeia, situava-se próxima da Igreja Matriz dos Olivais, no núcleo histórico dos Olivais Velho.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Avaliação dos nossos professores


Este meu comentário de hoje vem no seguimento de uma discussão que surgiu no seio de um grupo onde estavam presentes várias professoras. Durante todos os meus anos como aluno tive, na generalidade, bons professores. Isto aplica-se desde o 1º ano até ao Mestrado. Claro, existiram excepções, recordo-me de uma odiosa professora de Geometria Descritiva da extinta Escola Vitorino Nemésio e de uma professora de Francês que pouco me ensinou, embora isso também se deva ao mau comportamento da minha turma na aula dela (e já agora meu também). Também me recordo de vários excelentes exemplos como o professor de Inglês do 9º ano na Escola Gaspar Correia, a professora de Português e a de Química do 12º ano ambas da Vitorino Nemésio ou, por último, o Professor de Filosofia do 11º ano da Herculano de Carvalho.

Assim, lanço uma pequena sondagem sobre a qualidade dos professores que foram encontrado ao longo da vida e, caso o queiram, podem sempre utilizar a caixa de comentários para justificarem as vossas opções.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O mais importante de uma organização: os seus recursos humanos



Existe uma Biblioteca de Ensino Superior cujo o número de colaboradores com formação superior em Ciências da Informação é zero. Era assim para quando lá entrei num estágio profissional, assim ficou quando o meu estágio terminou e, consequentemente, de lá saí.

A falta de aposta em profissionais devidamente formados tem um preço e, infelizmente, nesta será bem alto caso nada seja feito com urgência. A referida Biblioteca reúne, desde o ano 2000 em formato exclusivamente digital e em suporte de CD, todos os trabalhos académicos produzidos pela instituição. Contudo, não existe qualquer estratégia de preservação digital devido, numa primeira fase, à natural falta de sensibilização para a questão por parte dos seus colaboradores e, após ter existido um alerta continuado para este facto, à falta de meios ou à desvalorização do papel da Biblioteca por parte da direcção. Sinceramente é difícil compreender qual, embora a deslocalização da reprografia para o espaço interno da Biblioteca coloque mais ênfase na segunda opção.

Actualmente alguns dos trabalhos mais antigos já tinham sido perdidos devido à deterioração do material de suporte físico, algo que se irá acentuar rapidamente nos próximos anos. Porém, o problema extravasa o mero problema do suporte, já que todos os objectos digitais carregam consigo um problema estrutural que coloca em causa a sua preservação a longo prazo: a rápida obsolescência a que a tecnologia de leitura, armazenamento e recuperação digital se encontra geralmente sujeita. A obsolescência tecnológica pode então manifestar-se de duas formas, por um lado, ao nível de suportes físicos como foram os casos das cassetes VHS ou das disquetes e, por outro, ao nível do próprio software pois também estes sofrem evoluções constantes como, por exemplo, o MS-DOS ou o Windows 98.

A falta de investimento em pessoal qualificado é uma das causas desta situação o que é, na minha opinião, ainda mais escandaloso quando estamos perante uma instituição de Ensino Superior.Num futuro não muito distante, devido provavelmente à incúria humana, esta instituição perderá parte importante do seu património académico devido à falta de uma estratégia de preservação digital, o que não deixa de ser curioso quando lá se leccionam cursos de Eng. Informática. Talvez então seja dada à Biblioteca a mesma importância que ao Laboratório de Química ou ao de Design, embora tarde demais. 


  

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Se isto não chega tens Portugal ao contrário


A banda portuguesa Xutos&Pontapés têm uma música chamada "O Mundo ao contrário". Nem gosto particularmente da referida melodia, mas acho que se adequa na perfeição na transcrição que vou fazer de uma notícia hoje publicada no Público:

"Enquanto a taxa de emprego dos jovens com o ensino secundário praticamente não se alterou, a quebra no grupo dos licenciados com menos de 25 anos foi de quase 20%. Elísio Estanque, sociólogo e investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, não considera estes dados surpreendentes e relaciona-os com "a falta de modernização e de inovação do tecido empresarial português, excepcional a nível europeu".

"Estamos a falar de um país em que os patrões são menos qualificados do que os empregados e onde se chega ao ponto de alguns jovens se sentirem constrangidos a omitir que têm uma licenciatura para conseguir um emprego, por estarem cientes de que o empregador optará por aquele que tiver menos qualificações", comenta Elísio Estanque."


Reformulando a letra daria algo do género:

Se te esforçaste mais,
Se trabalhaste mais,
Se isto não chega tens Portugal ao contrário

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Efectivamente


Não sou linguística e corrijam-me se estou errado, mas não o alfabeto latino um sistema de escrita que se baseia na representação dos sons da fala? Neste caso e sendo este o alfabeto utilizado pela língua portuguesa, existem no vigente acordo ortográfico algumas aberrações.

Uma delas reparei quando, ao vir de Lisboa na segunda-feira, passou na M80 (sim estou feito um "cota") o êxito dos GNR "EfeCtivamente". Não se tratando de uma consoante muda como se qualquer um pode constatar ao ouvir a referida música, porque raio é que foi eliminada no novo Acordo Ortográfico? Alguém me sabe explicar?

Podem-no confirmar aqui:


P.S. - Eu até sou favorável a processos de normalização internacional, acho que tornam o mundo "mais pequeno" e compreensível, por exemplo, era excelente que de uma vez por todas se utilizasse exclusivamente a Norma Portuguesa de referências bibliográficas.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Onde está o prémio de especialização?


Em História Económica e presumo que em Economia também, é comum estudar-se o "skill premia" que grosseiramente traduzo aqui por “recompensa” ou “prémio de especialização”. Este não é mais não é mais que a desigualdade de rendimento entre trabalhadores especializados e indiferenciados a favor dos primeiros, ou seja, pretende-se aferir qual é a "recompensa" que um trabalhador pode obter ao adquirir uma determinada competência.

Na sociedade portuguesa esta questão está na ordem do dia à medida que o número de licenciados, mestres e doutorados no desemprego não para de aumentar. Porém, alguns estudos indicam que a taxa de empregabilidade é maior em que tem melhores qualificações académicas. Pessoalmente não sei será verdade, tenho as minhas dúvidas mas só poderei ter uma opinião formada caso tivesse melhor informado.

O que sei é que a economia portuguesa nunca será competitiva a nível internacional se continuar a apostar em mão-de-obra pouco qualificada e em salários baixos, isto é, a apostar no Medíocre com alguns resultados a curto prazo através da diminuição dos custos fixos permitindo, desta forma, um preço final mais competitivo caso se trate de uma organização que produza bens tangíveis. Contudo, a manutenção de trabalhadores num nível salarial abaixo das suas qualificações não é, a longo prazo, uma boa opção.

A todos os empregadores quero deixar o seguinte recado: uma remuneração condizente com as competências que se adquiriram e a respectiva valorização profissional fazem parte de um pacote que no seu conteúdo incluem, da parte do trabalhador, uma maior responsabilidade e dedicação. O factor produtivo mais importante numa organização é o capital humano e a determinação deste na execução do seu trabalho. Um líder é aquele que consegue com que o resto do grupo se empenhe a fundo numa questão quando a organização mais precisa, fazendo com que os colaboradores despendam mais tempo no seu trabalho de uma forma quase natural e sem quaisquer reivindicações extraordinárias, tal só é conseguido caso as premissas atrás referidas se concretizarem.



quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A importância do ensino da História

Parece que o ensino da História, enquanto disciplina autónoma, está ameaçado já que o actual Ministro, Nuno Crato, está com ideias de fundir esta disciplina com Geografia. Não sei quais serão os objectivos desta medida, embora facilmente se adivinhe mais uma "poupança" orçamental através da redução do número de docentes destas áreas.

Actualmente não faço a menor ideia de como a História é ensinada no ensino obrigatório. A última vez que frequentei a disciplina de História foi no ano lectivo de 1996/97, estava, portanto, no 9º ano de escolaridade, visto que no secundário optei pelo agrupamento científico-natural, regressando à História apenas em 2002/03, desta feita na FCSH/UNL.

Assim, é-me difícil avaliar se o modelo de ensino actual da História faz muito ou pouco sentido. O que sei é que faz sentido e, caso seja ensinado correctamente, faz TODO o sentido. Algumas pessoas menos letradas - para não lhes chamar ignorantes - têm bastante dificuldade em compreender para que serve a História e, concretamente, qual o intuito do seu ensino.

Recordo-me de ouvir uma funcionária de uma Biblioteca queixar-se que não percebia porque é que a filha tinha que saber o que foi o Paleolítico, ou de que forma ruiu o Império Romano.

Meus caros, compreender a História não é saber de cor os Reis de Portugal, embora isso possa ser (ou não) importante. Na realidade o objecto de estudo da História é o Homem, ou seja, vocês! E ao estudar o passado humano, a História explica grande parte do presente. Não é por acaso que cada um de nós nasceu num determinado local, fala uma determinada língua, tem determinados costumes, que Portugal é um pequeno estado-nação da Europa, ou que no Norte da Europa se vive substancialmente melhor.

O estudo e o ensino da História são fundamentais para o conhecimento da natureza humana, das suas particularidades, de que forma chegámos até ao presente, ou seja, para o nosso próprio auto-conhecimento enquanto sociedade.

P.S. - Entretanto uma pessoa ligada à História indicou-me este texto, concorde-se ou não creio que vale a pena ler:


sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A possível extinção do Politécnico de Portalegre


De acordo com esta notícia está em curso uma profunda reforma no sistema de Ensino Superior em Portugal onde, entre outras medidas, se prevê a extinção do Instituto Politécnico de Portalegre.

Em primeiro lugar, acho muito bem que se reforme o ensino superior no sentido da sua racionalização e diminuição. Existem demasiados cursos e, simultaneamente, demasiadas instituições de ensino superior, o que se traduziu nas últimas décadas não só num aumento da despesa públicas mas, SOBRETUDO, numa decadência brutal na exigência lectiva. Hoje temos muitos bons diplomados e diplomados que não mereciam sequer ter completado o ensino secundário, o que para mim é inaceitável. Anos e anos a trabalhar para as estatísticas com Novas Oportunidades e etc., ou seja, décadas de facilitismo, deram-nos alguns licenciados com poucas ou nenhumas competências.

No entanto, restringindo-me apenas ao assunto IPP, não concordo com a total extinção desta instituição. Esta minha opinião deve-se a alguns exemplos de alunos, bons alunos diga-se, que por falta de condições monetárias não puderam estudar nos tradicionais destinos académicos, normalmente Lisboa ou Coimbra. A maioria dos alunos do IPP são fracos, bem como boa parte dos docentes - evidentemente que existem excepções e excelentes docentes. Todavia, a extinção do IPP é um passo em direcção a uma maior injustiça social, impedindo os bons alunos de famílias carenciadas do distrito de prosseguirem os estudos e condenando, uma vez mais, Portalegre à desertificação.

Perante tudo isto, creio que seria uma boa política se os dirigentes do IPP começassem a pensar em reunir todos os cursos com maior procura nas instalações da ESTG, alienando o extenso património das outras escolas (Escola Agrária de Elvas, Escola Superior de Saúde e Escola Superior de Educação). Assim, tornava-se o instituto mais sustentável do ponto de vista financeiro e, possivelmente, se a iniciativa partir do interior do próprio, fosse possível convencer o governo a não colocá-lo no caixote do lixo da História.