Adam Smith (1723-1790) foi um filósofo e economista escocês numa época onde tal ainda era possível. Tive o prazer de ler as duas obras mais conhecidas deste autor; na totalidade, An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations; e, de forma parcial, The Theory of Moral Sentiments.
Wealth of Nations é considerado o primeiro trabalho de economia e, devido sobretudo a esta obra, Smith é encarado como o fundador da ciência económica. No entanto, publicada numa época onde o conhecimento científico ainda era relativamente reduzido, permitindo que um grande pensador pudesse dominar várias áreas em simultâneo, e imbuída pelo espírito iluminista, Wealth of Nations possui algumas reflexões de carácter quase filosófico.
Hoje trago-vos uma sobre a natureza humana que tive que a transcrever mal a li, pois acho-a genial. Na minha opinião, o que estão prestes a ler resume grande parte daquilo que somos, mas deixo à vossa consideração outras possíveis opiniões. Leiam, vale mesmo a pena.
“ (…) O
cachorro afaga a mãe, o pequeno cão de estimação procura de mil formas atrair a
atenção do dono, que está a jantar, quando quer que ele lhe dê comida. O homem
usa, por vezes, dos mesmos artifícios dos com os seus congéneres e, quando não
tem outra maneira de os levar a agir de acordo com os seus desejos, procura,
por meio do servilismo e da adulação, obter a sua boa vontade. Não tem,
contudo, tempo para fazer isto a cada momento. Numa sociedade civilizada ele
necessita constantemente da ajuda e cooperação de uma imensidade de pessoas, e
a sua vida mal chega para lhe permitir conquistar a amizade de um pequeno
número. Em quase todas as outras espécies animais, cada indivíduo, ao atingir a
maturidade, é inteiramente independente e, no seu estado normal, não necessita
de ajuda de qualquer outro ser vivente. Mas o homem necessita quase
constantemente do auxílio dos seus congéneres e seria vão esperar obtê-lo
somente da sua bondade. Terá maior probabilidade de alcançar o que deseja se
conseguir interessar o egoísmo deles a seu favor e convencê-los de que terão
vantagens em fazer aquilo que ele deles pretende. Quem quer que propõe a outro
um acordo de qualquer espécie, propõe-se conseguir isso. Dá-me isso, que eu
quero, e terás isso, que tu queres, é o significado de todas as propostas desse
género; e é por esta forma que obtemos uns dos outros a grande maioria dos
favores e serviços que necessitamos. Não é da bondade do homem do talho, do
cervejeiro ou do padeiro que podemos esperar o nosso jantar, mas da
consideração que eles têm do seu próprio interesse. Apelamos, não para a sua
humanidade, mas para o seu egoísmo, e nunca lhes falamos das nossas
necessidades, mas das vantagens deles. (…) ”