domingo, 6 de outubro de 2013

Capela dos Alpoim na Igreja Paroquial de Santa Maria dos Olivais

Na atual freguesia dos Olivais dos quatro edifícios utilizados como Igreja, apenas uma, a Igreja Paroquial de Santa Maria dos Olivais, foi edificada anteriormente ao século XX. Isto porque uma outra, situada junto às portas (portela) de Lisboa foi demolida aquando da construção do Aeroporto. Mas isso será um assunto que abordarei noutra ocasião.

A Igreja Paroquial de Santa Maria dos Olivais, como creio ser do conhecimento da grande maioria dos Olivalenses, foi fundada nos finais do séc. XIV. Contudo, o edifício atual é fruto de uma reconstrução setecentista, com bastantes alterações sofridas após o terramoto de 1755.

Sendo relativamente simples, com uma única nave, possui, no entanto, duas capelas. A do lado esquerdo, com a evocação de Nossa Senhora de Lourdes, ostenta o brasão da família Alpoim, bem como uma sepultura da mesma família.

Brasão da família Alpoim no arco de uma capela lateral da Igreja Paroquial de Santa Maria dos Olivais

Era bastante comum, no Antigo Regime, que determinadas instituições (confrarias, algumas misericórdias de menores posses, etc.), assim como as famílias nobres, erguessem capelas privadas. Nestas poder-se-ia prestar culto aos padroeiros da irmandade, aos irmãos ou aos defuntos da família, consoante a capela fosse «institucional» ou «familiar». Era também comum a «aquisição» de missas - que, por um montante mais elevado, podiam ser cantadas - por alma dos que faleceram.

A Igreja Paroquial de Santa Maria dos Olivais não constitui exceção e aqui ficam duas imagens, convidando todos os Olivalenses a visitarem este imóvel classificado como de Interesse Público.

Sepultura ostentando o brasão dos Alpoim. Igreja Paroquial de Santa Maria dos Olivais.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

1º Visconde dos Olivais - Uma breve biografia

Aquele que viria a ser o primeiro Visconde dos Olivais, António Teófilo de Araújo, nasceu em Lisboa, a 5 de Março de 1804. Filho de um tesoureiro minhoto, o jovem António Araújo casou aos 19 anos, em 1823, com Maria Rosa de Araújo Veiga, natural de Macau, filha de um opulento capitalista, proprietário e filantropo Macaense.

Ainda relativamente jovem fez importantes investimentos no setor segurador, adquirindo ações da Companhia Confiança, em 1838, e, mais tarde, da Confiança Nacional, em 1845.

Em 1847, o futuro Visconde dos Olivais adquiriu 70 acções do Banco de Portugal, iniciando, desta forma, um longo percurso naquela instituição, na qual exerceu diversos cargos de administração. Assim, António Araújo foi membro do Conselho Fiscal (1854-78) e director do Banco de Portugal, no ano de 1862. Por outro lado, o Visconde era também um dos principais accionistas, chegando a possuir, nos anos 1870, cerca de 700 acções.

Com tamanha importância económico-financeira, não é de espantar a nobilitação como Visconde dos Olivais, com que o Rei D. Luís o agraciou por Decreto de 22 de Março de 1864.

Mas para além do Banco de Portugal, o agora Visconde dos Olivais foi o principal promotor da Companhia de Águas de Lisboa - com uma quota de 80 contos de réis -, esteve no grupo fundador da Companhia Geral de Edificações - empresa de construção civil -, e do Banco Lisboa e Açores, em 1875. Este Banco está na origem do atual Santader-Totta.  

A fortuna do banqueiro valeu-lhe ainda figurar, no censo eleitoral de 1872, como um dos 40 maiores contribuintes de Lisboa, enquanto, em 1877, passou a ter assento no Conselho Municipal, devido ao facto de se encontrar entre os 24 maiores proprietários da capital.

As ligações entre o poder económico e político não são de hoje, e o Visconde dos Olivais foi um membro ativo do Partido Histórico, sendo eleito sucessivamente deputado na Câmara dos Deputados, entre 1865 e 1874, primeiro pelo círculo de Póvoa do Lanhoso, terra de seu pai, e posteriormente pelo círculo de Lisboa.




A 16 de Julho de 1870 foi elevado, por carta Régia, a par do Reino. Pertenceu a diversas Comissões Parlamentares, entre as quais as de Agricultura (1865,66,68,1870-74), pelo que espero «encontrar-me com ele» nas minhas próximas pesquisas.

Fidalgo da Casa Real, Comendador da Ordem de Cristo e de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, o Visconde dos Olivais faleceu, na Lapa, a 4 de Agosto de 1879.

Sem descendência, o título passou para a sua sobrinha e principal herdeira, Clotilde Veiga de Araújo.

Uma última nota para a sua esposa que, seguindo o cariz filantrópico do seu próprio pai, fundou um importante asilo para crianças pobres, nos Olivais, ao qual legou 14 contos de réis.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Arquivo Histórico Municipal de Ponte de Sor | Documentos do mês | setembro 2013 | Os Menezes: morgados de Ponte de Sor (séculos XV-XIX)

No mês de setembro, a mostra "Documentos do mês", patente no Centro de Artes e Cultura, articula-se com a iniciativa integrada na comemoração das Jornadas Europeias do Património, que consistirá numa conferência intitulada “Arquitetura civil oitocentista no concelho de Ponte de Sor: as Casas das Famílias Goes e Braga”, a realizar no CAC, no dia 21 de setembro, pelas 16h30. A Casa da Família Goes, situada na Rua Vaz Monteiro, em Ponte de Sor, foi construída no final do século XIX no preciso local onde até então existia um prédio, que Primo Pedro de Andrade apelida de «Solar», pertencente aos Menezes, detentores do Morgado de São Francisco de Ponte de Sor.

Morgado ou morgadio consistiu numa forma institucional e jurídica de defesa da base económica territorial da nobreza, pois de acordo com este sistema, que se desenvolveu em Portugal a partir do século XIII e só foi extinto em 1863, os domínios senhoriais eram inalienáveis, indivisíveis e insuscetíveis de partilha por morte do seu titular, transmitindo-se nas mesmas condições ao descendente varão primogénito. A referência mais antiga que até agora encontrámos ao Morgado de Ponte de Sor é o sumário de uma escritura celebrada em 1504, integrado num inventário do cartório da «Caza de Menezes. Ponte do Sôr», que está conservado no Arquivo Histórico Municipal (Doc. 1). O referido sumário documenta a compra de uns casais em Sintra pertencentes ao Morgado de Ponte de Sor, sendo o comprador Gonçalo Vaz de Azevedo, que foi Senhor desta vila e Alcaide-Mor de Sintra, títulos adquiridos ao seu tio, Pedro Lopes de Azevedo (Doc. 2). É possível que a ligação da família Menezes a Ponte de Sor se tenha estabelecido através do casamento de Gonçalo de Azevedo com Leonor de Castro, filha de Fernando de Menezes, o Roxo, o qual nasceu cerca de 1430 e foi o 1.º Senhor do Louriçal, senhorio que se autonomizou a partir do dos Menezes de Cantanhede. Gonçalo de Azevedo e Leonor de Castro tiveram três filhos, dois homens e uma mulher, tendo o primogénito morrido em Arzila e passando o senhorio de Ponte de Sor para o filho segundo, Francisco de Azevedo e Lucena ou de Menezes. Este casou duas vezes, mas não teve descendência, acabando o senhorio por transitar para um seu sobrinho, filho da irmã, Isabel de Castro, e de António Correia Baharém, fidalgo do século XVI que se distinguiu nas guerras do Oriente. Séculos mais tarde, o último morgado de Ponte de Sor foi Manuel Maria de Menezes, o qual, como comprovam as escrituras conservadas no Arquivo do Cartório Notarial de Ponte de Sor, começou a vender as propriedades que aqui possuía em 1892 e se desfez da maioria dos bens pertencentes ao Morgado de São Francisco de Ponte de Sor no ano de 1898.

Documento 1
1498 Junho 30, Lisboa – Carta de venda e doação feita por Pêro Lopes de Azevedo, Fidalgo da Casa d’El Rei e Senhor de Ponte de Sor, e por sua mulher Dona Isabel de Miranda ao Doutor Gonçalo de Azevedo, Fidalgo da Casa d’El Rei, Desembargador do Paço e sobrinho daqueles, da dita vila de Ponte de Sor, com todo o seu termo, jurisdição cível e crime, alcaidaria e todos os direitos que nela possuíam, bem como das casas que tinham na vila, com seus chãos e pombal, pela quantia de 80.000 réis brancos da moeda então corrente, ficando como fiador, em caso de morte do comprador sem que a dívida estivesse saldada, Dom Diego de Castro, do Conselho d’El Rei, Alcaide-Mor do Sabugal e Senhor das terras de Lanhoso, Cinfães, Santa Cruz. Testemunhas: Licenciado João de Braga, Fernão Vieira, Escudeiro de Pêro Lopes, e Gonçalo Vaz, moradores em Ponte de Sor. Tabelião: Silvestre Afonso, Escudeiro d’El Rei e seu Tabelião em Lisboa. AHMPS. Proveniência: doação particular.

Documento 2
[S.d., s.l.] – Inventário do cartório da «Caza de Menezes. Ponte do Sôr». Data possivelmente do século XVIII e elenca um vasto conjunto de documentos, distribuídos por três maços e numerados (no Maço I, 40 documentos; no Maço II, 42; no Maço III, 57). Infelizmente, desconhecemos o paradeiro do cartório, restando-nos apenas os sumários da documentação que o compunha. Trata-se de escrituras relacionadas com a posse e a administração de direitos e de bens imóveis, lavradas entre os séculos XV e XVIII. AHMPS. Proveniência: doação particular.


quinta-feira, 18 de julho de 2013

A origem histórica do vinho Alentejano


Não há. Ou melhor, claro que existe, mas é bastante recente, em termos quantitativos, do que à partida se poderia esperar, pois, na realidade, o Alentejo era, até sensivelmente os anos 1980, uma região com pouca produção de vinho. Este facto já se fazia sentir em meados do século XIX, conforme se pode verificar na Figura 1.

Figura 1 - Produção distrital de vinho (1882-1885)

Fonte: http://www.ruralportugal.ics.ul.pt/ (em breve disponível nas bases de dados)

Contudo, setenta anos mais tarde, como é visível na Figura 2, o panorama afigurava-se praticamente inalterado, com a produção vinícola alentejana a se pautar por um carácter ainda mais residual no contexto nacional do que no final da centúria de Oitocentos.

                                      Figura 2 - Produção distrital de vinho (1950-1954)

Fonte: Estatísticas Agrícolas (INE)

De facto, a agricultura portuguesa sofreu muitas alterações nas últimas décadas, muito para além da sua conhecida quebra no conjunto da atividade económica nacional. Foram vencidos alguns constrangimentos ecológicos, muito por força dos trabalhos de hidráulica agrícola, assim como a política económica para o setor alterou-se radicalmente à medida que a «lavoura», entre outros factores, se industrializou trazendo boas - especialização, aumento produtivo - e más consequências - perda de biodiversidade. 

Este tipo de questões só podem ser compreendidas à luz de uma visão de longa duração que, esperançosamente, o projeto Agriculture in Portugal: Food, Development and Sustainability (1870-2010) irá conceder.

Quanto ao caso do vinho alentejano, certamente há quem saiba os motivos da ausência tardia. Recordo-me de alguém me falar na proibição da plantação de vinhas no Alentejo, mas sinceramente ainda não sei responder com precisão. Se algum dos leitores souber, por favor deixe o seu contributo na caixa de comentários.

sábado, 13 de julho de 2013

Sistema de pesos e medidas do concelho dos Olivais

As pessoas mais velhas certamente sabem que o actual sistema métrico-decimal é relativamente recente pois, apesar de ter sido instituído legalmente em Dezembro de 1852, as anteriores terminologias permaneceram no vocabulário popular até meados do século XX. Assim, termos como alqueires, almudes, arrobas ou arratéis são ainda relativamente conhecidos no seio das populações mais idosas, embora muitos já não saibam ao que correspondem concretamente.


O que poucos sabem é da variedade de pesos e, sobretudo, da extraordinária diversidade regional de medidas que vigoraram desde a Idade Média até meados do século XIX, com origens diversas repartidas entre influências europeias, árabes e romanas. Esta heterogeneidade traduziu-se numa grande disparidade de medidas entre concelhos de uma mesma região e, inclusivamente, através de diferenças bastante significativas entre concelhos limítrofes. Facilmente se compreende como toda esta situação em muito prejudicava a actividade económica e o comércio, facto que desde cedo não escapou ao poder central.


Embora o assunto já tenha sido abordado nas cortes de Lisboa de 1455, foi com o advento do Estado Moderno, num período em que a Coroa procurou reforçar a sua autoridade, que se empreenderam os primeiros grandes esforços de normalização do sistema de pesos e medidas.


 No reinado de D. Manuel I (1495-1522), legislou-se nesse sentido, porém, estas medidas tiveram um alcance bastante limitado. A provar a ineficácia do esforço manuelino, ainda na mesma centúria, em 1575, D. Sebastião volta a insistir na necessidade de uma reforma, muito embora este monarca se centre apenas nas medidas de capacidade, mantendo o sistema de pesos inalterado. Sabemos que nesta última reforma foram enviados padrões para os principais centros urbanos, regulados pela medida de Lisboa, que entretanto fora adoptada como medida padrão para o conjunto do Reino.

Infelizmente também não será esta reforma que irá conseguir resolver toda esta problemática, como verificaram muito posteriormente os diversos membros da Comissão Encarregada de tratar da Reforma dos Pesos e Medidas, constituída já no início do século XIX. Como exemplo, podemos citar Sebastião Francisco Mendo de Trigoso, um dos mais proeminentes membros desta comissão e da Academia das Ciências de Lisboa (instituição que teve um papel essencial de liderança em todo este processo) que, acerca da implementação da reforma de 1575, é peremptório em afirmar: “ É constante que poucas foram as Câmaras que deram cumprimento à sábia lei d’esse Soberano.”

Figura 1 - Caixa de pesos e medidas

Após estas duas iniciativas infrutíferas, segue-se um longo hiato em que o assunto parece estar afastado da sociedade portuguesa, tendo sido apenas quebrado em 1804, após a publicação da “Tabella Comparativa dos Pesos e Medidas de Portugal com os Pesos e Medidas da França”. Esta, como o título indica, estabeleceu a comparação dos pesos e medidas nacionais com o sistema métrico decimal, originário de França e aí adoptado em plena Revolução Francesa, durante o ano de 1791. Não tardou muito que a introdução deste sistema em Portugal fosse amplamente defendida, desde logo, em 1812, pela Comissão Encarregada do Exame dos Forais e Melhoramento da Agricultura, que sugere, entre outras «providências úteis», o estabelecimento da “uniformidade dos Pesos e Medidas”.

Iniciava-se, desta forma, o processo de adopção definitiva do Sistema Métrico Decimal. Contudo, tratou-se de um processo que esteve muito longe de ter sido pacífico ou rápido e, inclusivamente, foi proposto, sem qualquer sucesso, um sistema misto que era em tudo semelhante ao mètre francês, mas que por razões políticas e de conveniência de aplicação mantinha a terminologia portuguesa, designada por “mão travessa”. Concretamente, as diferentes unidades “tradicionais” portuguesas passariam a ser equivalentes às suas congéneres do sistema métrico decimal. Assim, por exemplo, manter-se-ia a designação de canada alterando-se a sua capacidade e tornando-a equivalente à do litro; o mesmo aconteceria entre o arrátel e o quilograma, e assim sucessivamente.


Foi neste contexto que, em 1814, D. João VI manda executar no Arsenal do Exército trezentos conjuntos de padrões de peso e medidas de acordo com o novo sistema métrico decimal. No entanto, como é sabido, a primeira metade do século XIX português foi pautada por uma grande instabilidade política e, novamente, a aplicação de uma nova reforma metrológica foi adiada. Foi então que Constantino Lobo, Lente da Universidade de Coimbra, se queixa de um sistema que “causa grave detrimento ao Commercio, ou pela matéria, de que são feitos, ou pela pouca exactidão, que elles tem.”. O autor alertava para a facilidade com que se podiam falsificar pesos e medidas, sobretudo pelo facto de muitos serem feitos de madeira ou de metais que se oxidam com facilidade, tais como o latão ou o ferro.

Finalmente, em Dezembro de 1852, adoptou-se o Sistema Métrico Decimal tal e qual como o conhecemos hoje, tendo sido estipulado um prazo de dez anos para a sua entrada em vigor. A partir do primeiro de Janeiro de 1860 ficaram oficialmente abolidos todos os anteriores pesos e medidas; todavia, a sua utilização prolongou-se no tempo, mesmo apesar das multas a que estavam sujeitos todos aqueles que não cumprissem o novo decreto.


Figura 2 - Medidas do concelho dos Olivais
Fonte: Silveira (1868)
Como já referimos, muitos concelhos portugueses possuíam as suas próprias medidas, não constituindo o extinto concelho dos Olivais qualquer exceção. Assim, reproduzimos aqui as capacidades das medidas do concelho dos Olivais que, como podem verificar nos Quadros 1 e 2, era diferentes do vizinho concelho de Lisboa, quer nas medidas para líquidos, utilizadas para produtos como vinho, azeite e aguardente; quer nas medidas de sólidos, normalmente empregues para cereais e leguminosas, como trigo, centeio, milho, arroz ou feijão.
Quadro 1 - Capacidade, em litros, das medidas para líquidos dos concelhos dos Olivais e de Lisboa

Para a mente contemporânea é de difícil compreensão como dois concelhos limítrofes pudessem ter diferenças nos seus sistemas de pesos e medidas, com importantes implicações no quotidiano das populações. Todavia, foi assim no Antigo Regime e até meados do século XIX, não só nesta questão mas também noutras, como, por exemplo, o complicado direito de propriedade. E é com esta complexidade que quem pretende reconstituir o passado terá inevitavelmente que lidar.
Quadro 2 - Capacidade, em litros, das medidas para secos dos concelhos dos Olivais e de Lisboa


Para consultar os pesos e medidas de todos os concelhos de Portugal: 

SILVEIRA, Joaquim Fradesso da - Mappas das medidas do novo systema legal: comparadas com as antigas nos diversos concelhos do reino e ilhas. Lisboa, Imprensa Nacional, 1868.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Alguns dos usos e limites da Cliometria

Começo a publicar alguns dos trabalhos que realizei na componente letiva do meu doutoramento que, por sua vez, alguns foram publicados em Revistas especializadas em História. Hoje trago uma discussão que fiz sobre a Cliometria, tendo como ponto de partida um conhecido trabalho de Fernando Rosas. Deixo apenas dois pequenos trechos porque, caso estejam interessados, podem ler o artigo na íntegra aqui.


Alguns dos usos e limites da Cliometria

O uso de sofisticados métodos quantitativos de origem econométrica, assim como o recurso à teoria económica no estudo da história económica, a partir da década de 1960, levantaram um intenso
debate académico sobre as limitações que estas abordagens teriam à luz das particularidades do processo
histórico. Embora este debate tenha tendido para a sua «pacificação», na historiografia portuguesa perdurou
(e perdura?) até recentemente (Cardoso 2011, 488–494). Este trabalho parte precisamente de uma
publicação da autoria do historiador português Fernando Rosas, analisando somente as principais críticas
que este autor apresenta. Desta forma, muitos outros aspetos relacionados com a cliometria, e passíveis
de uma séria reflexão historiográfica, são intencionalmente ignorados. São os casos do recurso à
história contrafactual, do(s) método(s) como se constroem estatísticas retrospetivas e ainda da minuciosa
crítica de fontes a que devem ser sujeitas as estatísticas produzidas coevamente. Na realidade, o uso da
cliometria é um objeto de estudo que, do ponto de vista metodológico, pode ser perfeitamente tratado
através de uma exaustiva monografia, mesmo que limitado ao caso português, não obstante a modesta
disseminação da cliometria na historiografía económica nacional quando comparada com outros países.

(...)

Uma crítica à cliometria.

Ao estudar a economia e a política económica do Estado Novo, Fernando Rosas critica as abordagens de carácter cliométrico. Segundo este autor, partindo de modelos “(…) irredutíveis, quase sempre, a variáveis quantificáveis, à causalidade ou a abordagens monocausais (…)” (Rosas 2000, 15), fruto da aplicação à história da teoria económica neoclássica, a «nova história económica» reduziu-se à simplificação das explicações “(…) de tipo monocausal e reducionista (…)” (Rosas 2000, 14), ignorando outro tipo de raciocínios e explicações fundamentados na análise de outros géneros de fontes não mensuráveis, nomeadamente, neste caso específico, de carácter político. Por outro lado, os trabalhos cliométricos reproduzem as limitações inerentes aos “(…) pressupostos ideológicos de equilíbrio daquela escola económica [neoclássica] (…)” (Rosas 2000, 15). Adicionalmente, a transposição de conceitos e modelos económicos formulados contemporaneamente para o passado trouxe a este tipo de estudos o pior dos pecados do historiador, o anacronismo. Este autor, embora de forma pouco expressiva, acaba ainda por estender o seu ceticismo às “(…) realidades económicas dos séculos passados (…)” (Rosas 2000, 15), depreendendo-se que as suas críticas não se aplicam somente à análise cliométrica da economia portuguesa durante o Estado Novo.
As críticas apontadas têm, evidentemente, legítimas preocupações historiográficas, pelo que algumas também têm sido notadas por outros autores, quer cronologicamente a jusante (Ramos 1988), quer a montante (Tosh e Lang 2009). Estas refletem, na minha opinião, alguns dos limites e riscos da cliometria sem que, no entanto, se possam aplicar sistematicamente ao trabalho cliométrico, sobretudo tendo em conta as alterações metodológicas que este tem sofrido desde meados da década de 1980 (Greif 1997), através do reforço da contextualização histórica, da diversificação das teorias económicas de onde partem os modelos teóricos com que são construídas as hipóteses, e da adaptação destas a um determinado contexto histórico.

domingo, 7 de julho de 2013

Livro do Município, Memória Viva (Ponte de Sor)




Amanhã, pelas 19h00, no auditório do Centro de Artes e Cultura de Ponte de Sor será lançado o livro intitulado "Livro do Município, Memória Viva". Tivemos (eu e a Ana Isabel) o enorme prazer de participar nesta obra que resultou de uma parceria entre a Associação Nova Cultura, a Staurós e a Câmara Municipal de Ponte de Sor. A mesma, embora não se trate de um livro de História, reúne diversos documentos históricos, essencialmente fotografias, que retratam os principais aspetos da vida no concelho de Ponte de Sor, nos últimos cento e cinquenta anos.

É com enorme prazer que estarei presente.