domingo, 30 de junho de 2013

Orçamento da Câmara Municipal dos Olivais (1875-76)


Gráfico 1 - Despesa prevista no orçamento da Câmara Municipal dos Olivais (1875-76)

           Hoje, após uma longa ausência devido a compromissos profissionais e académicos, volto a ter algum tempo para escrever neste espaço. Como alguns saberão, eu sou natural da freguesia da Santa Maria dos Olivais, em Lisboa. Esta tem uma história administrativa secular, que remonta ao século XIV, tendo sido sede de concelho, entre 1852 e 1886.
            Uma das melhores formas de se reconstituir a vida de qualquer instituição formal é através dos seus registos de contabilidade. Por outro lado, devido ao valor probatório destes, existe uma maior preocupação na sua conservação. O resultado é que os livros de despesa e receita são, habitualmente, uma das melhores séries documentais a que um historiador tem acesso.
            No fundo do Ministério do Reino à guarda do Arquivo Nacional da Torre Tombo podem-se encontrar vários orçamentos da Câmara Municipal dos Olivais. A sua análise revela-nos, por um lado, as principais preocupações do município e, por outro, diversos aspetos essenciais da vida comunitária olivalense.
            Em relação ao primeiro caso, destaca-se o predomínio das despesas com obras públicas, seguindo-se as despesas relacionadas com o próprio financiamento da atividade camarária. A uma distância considerável, mas nem por isso de desprezar, apresentam-se «despesas sociais» – assistência, educação e saúde –, fruto do papel reservado ao poder público municipal naquilo a que poderemos como designar como o embrião do «estado social». Dentro destas, sobressai o apoio aos expostos (crianças abandonadas) através da atribuição de subsídios e à educação primária, cabendo à câmara o pagamento do salário dos professores, bem como do arrendamento e da manutenção das instalações escolares. Quanto à saúde, os gastos nesta rubrica situavam-se apenas com o pagamento do transporte de doentes até ao Hospital de S. José, pelos ordenados dos médicos municipais e pelo pagamento do foro do cemitério municipal de Bucelas (entendido como uma despesa de saúde pública).
            A segunda metade do século XIX ficou marcada pela aposta do Estado Liberal numa ambiciosa política de obras públicas, com o qual se pretendia a modernização económica de Portugal através, sobretudo, da redução de custos de transporte e, consequentemente, da integração das economias regionais e nacional nos mercados internacionais. A Câmara dos Olivais não constituiu exceção e grande parte da despesa de 1875-76 foi canalizada para a construção de estradas e a sua manutenção, assim como de pontes. No entanto, o principal gasto previsto prendia-se com a construção do matadouro municipal.
            Nas despesas administrativas deve-se assinalar o pagamento do arrendamento do edifício dos Paços do Concelho, ou seja, a Câmara Municipal dos Olivais não dispunha de instalações próprias.
            Por último, na área da justiça apenas se encontra o gasto com o policiamento e fiscalização da feira do Campo Grande, local que à época pertencia a este município.
            Numa próxima oportunidade continuarei, de forma problematizante e não meramente descritiva, este e outros assuntos relacionados com o extinto concelho dos Olivais. Um deles será, sem dúvida, a produção agrícola olivalense. 

Para quem quiser aprofundar o funcionamento financeiros das autarquias locais no Antigo Regime:

Valente, Patrícia Costa. 2008. Administrar, Registrar, Fiscalizar, Gastar. As despesas municipais do Porto após a Guerra da Restauração (1668-1696), Faculdade de Letras, Universidade do Porto, Porto

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Hospital Vaz Monteiro



Hoje partilho com quem se interesse pelo património o site www.monumentos.pt, onde é possível aceder ao SIPA, Sistema de Informação para o Património Arquitetónico, e pesquisar os itens inventariados em qualquer freguesia, concelho ou região do país. No caso concreto do concelho de Ponte de Sor, uma das fichas mais detalhadas que encontramos é a relativa ao edifício do Hospital Vaz Monteiro, hoje Unidade de Cuidados Continuados da Santa Casa da Misericórdia de Ponte de Sor. Este é um dos pontos de interesse do passeio pelo património pontessorense que se realizará amanhã, dia 22, a partir das 17h00, no âmbito do ciclo "Encontros com a História". Segue abaixo o link para essa ficha. Em cima, foto do edifício em causa, tirada c. 1936, ano da sua inauguração, e publicada em MURALHA, Pedro (dir.) – Ponte do Sôr: separata do Álbum Alentejano. Ponte de Sor: Câmara Municipal, [1930s].

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Arquivo Histórico Municipal de Ponte de Sor | Documentos do mês | Junho 2013 | As “casas da Câmara”: os Paços do Concelho de Ponte de Sor das origens ao século XX


Documento(s) do mês é uma mostra mensal, patente no átrio do Centro de Artes e Cultura de Ponte de Sor, que visa divulgar o património documental e histórico do concelho, recorrendo sobretudo a fontes do Arquivo Histórico Municipal.

No mês de junho, esta mostra articula-se com a iniciativa Encontros com a História, que consistirá em dois passeios orientados pelo património edificado da antiga vila de Ponte de Sor, a realizar nos dias 15 e 21. Um dos pontos de paragem do primeiro passeio será o edifício dos antigos Paços do Concelho, localizado na Rua Vaz Monteiro, e foi a sua história, bem como a dos seus antecessores, que escolhemos ilustrar através dos Documentos do mês.

A referência mais antiga que, até ao momento, encontrámos ao edifício sede da administração do Município de Ponte de Sor data de 1684; trata-se de uma ata de sessão de Câmara, que se realizou na casa do escrivão por as «cazas da camera estarem caídas» (ver Doc. 1). Uma provisão régia de 1682 autorizou a aplicação de 100.000 réis de impostos cobrados no concelho à reconstrução do edifício camarário, que já estaria concluída em 1687. É provavelmente esse imóvel que encontramos descrito no Tombo concelhio de 1767 (ver Doc. 2). Localizava-se no centro histórico da vila, junto das vias principais, a Rua Grande (atual Rua Vaz Monteiro) e a Ponte, e tinha dois pisos, sendo o superior certamente destinado às atividades governativas e administrativas da Câmara. A porta principal situava-se num balcão, ao cimo de uma escada de pedra com doze degraus, virada a poente. Este piso era composto por duas divisões, cada uma com uma janela, tendo também a primeira uma chaminé. O piso térreo incluía igualmente duas casas; a primeira servia de Açougue e tinha uma porta para o norte; a segunda era a Cadeia, com uma janela protegida por grades de ferro e igualmente virada a norte. Anexas a este bloco principal estavam a Torre do Relógio e, para o lado sul, uma casa térrea, com porta para o poente, chaminé e cantareiras. Na Praça da Câmara, situada em frente do edifício, ficava o Pelourinho.

De acordo com os registos de despesa do Município de Ponte de Sor, aquele edifício sofreu obras, consertos ou reparos frequentes no último terço do século XVIII. Já em 1857, foi arrematada uma obra de vulto nas casas da Câmara, envolvendo trabalho de carpintaria e de alvenaria. Face possivelmente à sua degradação, este imóvel acabou por ser demolido, construindo-se no mesmo local, em 1886, os novos Paços do Concelho (ampliados logo em 1894, para melhor instalação do tribunal judicial e da cadeia), que ali funcionariam durante um século, até 1987 (ver Doc. 3).
  
Documento 1
Ponte de Sor, 26 de fevereiro de 1684 – A sessão da Câmara Municipal de Ponte de Sor teve lugar «nesta villa nas pouzadas de morada de mim escrivão abaixo nomeado pellas cazas da camera estarem caidas». Esta situação tinha já levado os oficiais da Câmara a enviar uma petição ao Rei «em rezão das cazas da camera della estarem aruinadas e não aver no conselho rendas com que se posam levantar nem apozento pera se acomodarem os ministros quando vam a ella em coreiçam». Em resposta, a provisão régia de 1682 autorizara a aplicação de um imposto cobrado no concelho às obras necessárias. AHMPS, Livro da Camera que começa a servir este anno de 1684 [1684-1691], fls. 1, 7-7v.

Documento 2
Ponte de Sor, 6 de julho de 1767«Autto de medissam das cazas da Camera da villa da Pontte do Sor», medição realizada por ordem do Provedor da Comarca de Tomar. Segundo a descrição, no século XVIII, as casas da Câmara, ou seja, o edifício dos Paços do Concelho, tinham dois pisos e a torre do relógio; no piso térreo ficavam a Cadeia e o Açougue e no superior, as duas divisões utilizadas para fins administrativos. Os dois pisos eram unidos por uma escada exterior de pedra, no cimo da qual havia um balcão, com a porta principal. AHMPS, Traslado de escrituras de aforamento dos bens do Concelho e do Tombo dos bens do Concelho, fls. 130-132.

Documento 3 (em cima)
Ponte de Sor, [s.d.] – Paços do Concelho e antigo Largo do Município, hoje Praça da República, possivelmente fotografados em dia de feira. Reprodução de bilhete-postal integrado na publicação Bloco-postal: recordação de Ponte do Sor. Portugal. Ponte de Sor: Typ. Minerva Alentejana, [1928].

terça-feira, 14 de maio de 2013

O Mercado florestal de cortiça do Alto Alentejo e Extremadura (1830-1910)


Na próxima sexta-feira, dia 17 de Maio, participarei no II Encontro de História Contemporânea que se realizará na Universidade de Évora. A minha sessão está prevista para as 15h30, conforme o programa do encontro

O texto que irei apresentar conjuntamente com o meu amigo Francisco Parejo Moruno da Universidad de Extremadura, pode ser encontrado aqui. Este, no entanto, constitui apenas uma primeira investigação neste tema, como, aliás, nós explicamos, pelo que as principais questões de carácter empresarial estão ainda por explorar.

Produção regional de cortiça (1905)

Nota: O Distrito de Lisboa compreendia à época todo a área que viria a ser, a partir de 1926, o Distrito de Setúbal. Desta forma fica explicado a produção tão elevada deste distrito.

Já a Ana Isabel irá também participar, mas no dia anterior, com uma comunicação relacionada com a assistência no distrito de Portalegre, no século XIX, fruto das suas investigações.


sexta-feira, 3 de maio de 2013

Arquivo Histórico Municipal de Ponte de Sor | Documentos do mês | Maio 2013 | D. Maria Pia e Maria do Rosário: duas faces da maternidade no século XIX


No mês de maio, em cujo primeiro domingo é celebrado o Dia da Mãe, aludimos a duas vivências muito distintas da maternidade em Portugal, no século XIX, que ecoam nas atas das sessões da Câmara Municipal de Ponte de Sor. Trata-se de duas mulheres de nome Maria, ambas mães no início da década de 1860, sendo uma a rainha de Portugal, D. Maria Pia, que deu à luz o príncipe herdeiro D. Carlos, e outra uma habitante pobre de Ponte de Sor, Maria do Rosário, que expôs e depois recuperou a bebé Ana dos Paços.

Em setembro de 1863, chegando ao fim a primeira gravidez da rainha D. Maria Pia, esposa do rei D. Luís, a Câmara Municipal de Ponte de Sor foi alertada pelas autoridades distritais em relação às demonstrações festivas que deviam realizar-se por ocasião do «feliz sucesso de Sua Majestade», ou seja, do nascimento do príncipe ou princesa (ver Doc. 2). D. Carlos nasceu no dia 28 de setembro, no Palácio da Ajuda e, tratando-se do primogénito e futuro herdeiro da coroa, o acontecimento foi festejado por todo o país nesse dia e nos seguintes. As fotografias da jovem mãe, rainha de Portugal, e do príncipe bebé, integradas na coleção do Palácio Nacional da Ajuda (ver Doc. 3), documentam com o realismo da imagem uma vivência por certo contrastante com a que terá tido a pontessorense Maria do Rosário, pobre atestada e mãe de uma bebé exposta em 1860. Nos mesmos livros de atas em que é descrita a celebração do nascimento do real bebé, registou-se o pedido daquela mulher para que lhe fosse entregue a exposta Ana dos Paços, sua filha e que de facto criava desde os quatro meses de idade (ver Doc. 1). Tal foi-lhe inicialmente negado, por não ter meios para sustentar a menina, mas acabou por lhe ser concedido.

Documento 1
1860 outubro 21, Ponte de Sor – Em sessão da Câmara Municipal de Ponte de Sor, foi presente um requerimento de Maria do Rosário, acompanhado de um atestado de pobreza passado pelo respetivo Pároco, pedindo «que se dê baixa a Luiza Varella nas folhas de pagamento dos expostos com relação a exposta Anna dos Paços entrando em lugar desta o nome da supplicante […] visto ter criado a mesma exposta desde a idade de quatro mezes athe agora em consequencia de ser sua filha». Acordou-se dar conhecimento do assunto ao Administrador do Concelho e ao Governador Civil de Portalegre. Este terá deliberado entregar a criança à requerente, para o que a Câmara convocou a sessão extraordinária de 20 de dezembro de 1860. Aí foi presente Maria do Rosário, que declarou ser mãe da exposta Ana dos Passos, mas não ter os meios necessários para a sustentação e o vestuário da filha; por esse motivo, a Câmara não fez entrega da exposta. O Governador Civil insistiu, contudo, na ordem dada, tendo a criança sido finalmente recebida pela mãe em sessão de 20 de janeiro de 1861 e deixado de ser considerada exposta. AHMPS, Livro de actas das sessões da Câmara 1851-1860, fl. 196; Idem 1860-1866, fls. 5 e 14.

Documento 2
27 Setembro 1863, Ponte de Sor – Foi apresentada, em sessão da Câmara Municipal de Ponte de Sor, uma circular do Governo Civil de Portalegre, de 9 do corrente, chamando a atenção para as demonstrações festivas a realizar por ocasião do «feliz sucesso de Sua Majestade a Rainha». Deliberou-se afixar editais convidando os moradores do concelho a porem luminárias nas suas janelas e sacadas por três dias imediatos ao momento em que chegasse a notícia do nascimento do príncipe ou da princesa, assim como no dia do seu batizado. Na sessão camarária seguinte, de 3 de outubro, o Presidente comunicou ser esse o dia destinado à celebração do Te Deum Laudamus (cântico de agradecimento por uma bênção especial) em ação de graças pelo nascimento do Príncipe Real, herdeiro da Coroa, e convidou a Câmara a assistir, tendo esta anuído «e se dirigio em corporação plena, assistida do Administrador do Concelho, á Egreja Matriz a solemnizar este acto religioso». AHMPS, Livro de actas das sessões da Câmara 1860-1866, fls. 115v-116, 117v-118.


Documento 3
1863, Lisboa (Palácio da Ajuda) – Fotografia da Rainha D. Maria Pia, com um vestido aos quadrados, sentada, segurando ao colo, de frente, o Príncipe Real D. Carlos, em bebé, com um vestido comprido e touca de tons claros. À esquerda da Rainha, aparece o berço com as armas reais portuguesas. A fotografia foi tirada no Palácio da Ajuda por Francisco Augusto Gomes. Dimensões: 10,5 x 6,2 cm. Palácio Nacional da Ajuda, n.º de inventário F60061. Imagem e descrição disponível em http://www.matriznet.imc-ip.pt.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

O desbaste nas Bibliotecas de Ensino Superior portuguesas

Ocasionalmente os trabalhos que deixamos publicados acabam por despertar, passado algum tempo, o interesse de alguém. Aconteceu-me isso esta semana e, por esse motivo, fui revisitar o primeiro artigo publiquei numa revista sujeita a arbitragem científica (no nº7 das Páginas A&B, relativo ao primeiro semestre de 2011). Curiosamente não se trata de um artigo da área de História, mas antes em Ciências da Informação e da Documentação, tendo resultado da investigação que levei a cabo no Mestrado com mesma designação.



Quando volto a ler trabalhos e artigos que produzi, normalmente sou bastante crítico em relação a mim mesmo. Contudo, não foi o caso e achei que hoje faria poucas alterações ao mesmo. Talvez se deva ao facto de me ter afastado desta área, regressando exclusivamente à História e, dentro desta, à História Económica. Ou, possivelmente, ele seja mesmo um excelente artigo.

Convido-vos a efetuarem a vossa própria apreciação, já que tomei a liberdade de disponibilizar o texto quase final aqui. Leiam e podem-me dar o vosso feed-back.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Documentos do mês | Abril 2013 | 150 anos da chegada do caminho-de-ferro a Ponte de Sor (1863)


No mês de abril de 2013 assinalamos a passagem de século e meio sobre a chegada do caminho-de-ferro a Ponte de Sor, em particular, a inauguração da secção da Linha do Leste entre Abrantes e Crato, que ocorreu no dia 4 de maio de 1863 (ver Doc. 3). Em Portugal, os trabalhos de assentamento do caminho-de-ferro começaram dez anos antes, em 1853, tendo a obra sido adjudicada pelo Estado à Companhia Central Peninsular de Caminhos de Ferro. Um dos principais objetivos deste empreendimento era ligar Lisboa à fronteira espanhola, ou seja, estabelecer comunicações rápidas entre Portugal e o estrangeiro. O primeiro troço de linha férrea, entre Lisboa e o Carregado, foi solenemente inaugurado em 1856. Os atrasos registados na construção deveram-se à instabilidade dos construtores, tendo-se rescindido o contrato com a Companhia Peninsular em 1857; em 1859, assinou-se um outro com D. José Salamanca e aprovaram-se os estatutos da Companhia Real dos Caminhos-de-ferro Portugueses; os trabalhos tomaram então carácter definitivo e acelerado. Em 24 de Novembro de 1863 ficou concluída a Linha do Leste (extensão de 272 quilómetros), considerada, a par da Linha do Norte (ligação Lisboa-Porto, terminada em 1864), o marco mais importante do lançamento da rede ferroviária nacional.

Em Ponte de Sor, os trabalhos da linha férrea começaram no verão de 1860, como testemunha a ata de uma sessão camarária de Junho desse ano (ver Doc. 1). As obras ficaram marcadas, entre outros aspetos, pela insalubridade da região, sobretudo no verão, sendo os operários vítimas do sezonismo, e por um acidente ocorrido em dezembro de 1861, com a queda de uma ponte sobre a Ribeira de Sor, junto à povoação original de Torre das Vargens (hoje chamada Torre Velha), arrastando consigo um comboio experimental, carregado de material e trabalhadores; quase todos faleceram.

Segundo Primo Pedro da Conceição, naquele princípio de maio de 1863, «o comboio inaugural foi recebido, através do percurso pelos povos da região, com estrepitosas manifestações de alegria.» Saía às 7h00 da manhã de Santa Apolónia e chegava a Ponte do Sor às 2h24 da tarde (ver Doc. 2). Sugerindo o forte impacto do caminho-de-ferro no desenvolvimento local, o mesmo autor afirma que «a estação de Ponte do Sor […] passou imediatamente a servir, tanto em passageiros como em mercadorias, esta vasta região que compreende as vilas de Mora, Cabeção, Montargil, Pavia, Avis e Galveias, que lhe deram um movimento extraordinário

Documento 1
1860 junho 24, Ponte de Sor – Ata de sessão da Câmara Municipal de Ponte de Sor, testemunhando o início dos trabalhos da linha férrea nesta zona no verão de 1860. O presidente do Município propunha que se solicitasse às autoridades competentes uma força de quinze a vinte soldados de Cavalaria, para fazer face à grande concorrência de operários que aqueles trabalhos trariam, «com o que pode seguir-se de graves dezastres»; concordando, a Câmara encarregou-o de requerer o que julgasse necessário «em beneficio da boa policcia». AHMPS, Livro de actas das sessões da Câmara 1851-1860, fl. 187.

Documento 2
Portaria de 12 Março 1863 – O rei D. Luís mandava participar ao fiscal da construção das linhas férreas de Leste e Norte que, aproximando-se a abertura à circulação pública da secção da Linha do Leste entre Abrantes e Crato, aprovava o horário do serviço provisório da exploração dessa Linha, entre Lisboa e esta última localidade. Publicado em anexo, o horário inclui as horas de chegada e de partida de cada estação e os preços dos bilhetes. A viagem de Lisboa a Ponte de Sor durava cerca de 7 horas e os bilhetes custavam1.640 réis em 3.ª classe, 2.300 em 2.ª e 2.960 réis em 1.ª. Fonte: Diário de Lisboa: folha official do governo portuguez. N.º 62, 19 Março 1863, p. 796.


Documento 3
1863 abril 29, Ponte de Sor – Ofício dirigido pelo Chefe da Estação de Caminhos-de-Ferro de Ponte de Sor, Domingos Boaventura de Almeida, ao Administrador do Concelho. Comunicava que o início do serviço de exploração da Secção da Via Férrea entre Abrantes e Crato se achava anunciado para o dia 4 de Maio e remetia 6 exemplares da tabela do mesmo serviço para que o Administrador, querendo, os mandasse afixar nos lugares mais públicos do concelho. O destinatário averbou no ofício que se mandaram afixar e se distribuíram os exemplares referidos. AHMPS, Pasta de correspondência recebida «1863 Caminhos de ferro».

Nota: na imagem em cima, pormenor de Mappa dos caminhos de ferro de Portugal e Hespanha. Escala 1:2000000. [Lisboa]: Lith. Matta, 1898. Disponível em http://purl.pt/1930/2/index.html.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

A História de Ponte de Sor em vídeo

Está em curso um projeto que tem como finalidade a realização de um filme sobre a História do concelho de Ponte de Sor. Neste, após uma introdução a épocas históricas que já só podem ser conhecidas através de pesquisa documental, serão abordados aspetos da vida quotidiana passada pontessorense, essencialmente a partir de testemunhos orais recolhidos entre os habitantes locais.


Praça da República durante a «Feira de Outubro» de 1907

Fonte:  Livro do Município, Memória Viva (2013). No prelo


O objetivo final é dar a conhecer a origem desta cidade, a sua evolução, as «estórias» de vida dos pontessorenses e a importância desta região como ponto de apoio na circulação dentro do território nacional. Historiadores - entre os quais se incluem os dois autores deste espaço - e Técnicos de Audiovisual estão, neste momento, a trabalhar na elaboração do texto de suporte para a banda sonora do vídeo.

Assim, se tiver fotos, documentos, objetos, vídeos ou um testemunho que considere pertinente, por favor, entre em contacto connosco ou faculte-nos o seu contacto. Poderá fazê-lo na caixa de comentário ou atráves do e-mail: cmsaff@gmail.com


segunda-feira, 25 de março de 2013

Agradecimento aos leitores

Ontem, na comemoração do 422º aniversário da Misericórdia de Ponte de Sor, após a brilhante intervenção da Ana Isabel, muitas pessoas foram-na felicitar pelo seu desempenho. Destas, umas quantas falaram e elogiaram também este espaço e, uma ou duas, perguntaram-lhe se ela sabia da sua existência e quem era o seu autor. Ora, a Ana Isabel é uma das autoras deste espaço que, em 2011, num período complicado da minha vida, criei como escape para colocar algumas das leituras que ia fazendo. Eu, nascido e criado no bairro dos Olivais, em Lisboa, como já devem saber (?), sou felizmente (em todos os sentidos) casado com esta bela norte-alentejana.

Já em 2012, após um interregno de alguns meses, achei que devia utilizá-lo para divulgar alguns dos meus trabalhos académicos/profissionais e convidei a Ana Isabel para fazer o mesmo. No entanto, entre o meu doutoramento, os projetos em que estou envolvido, as viagens constantes Lisboa-Ponte de Sor; e, do lado dela, o trabalho que realiza na Câmara Municipal de Ponte de Sor, o seu doutoramento e o nosso Duarte, para não falar do tempo que temos para estar juntos, por vezes, passam-se muitos dias sem qualquer atualização. 

Porém, o interesse de todos aqueles que têm visitado este espaço (e posso adiantar que o último post teve mais de 150 leituras) e as palavras de apoio que nos têm deixado, fazem com que mantenhamos uma grande vontade na sua manutenção. 

Quero, portanto, agradecer aos leitores deste espaço e convidar que participem mais, não só com os seus comentários, mas também, caso o desejem, com textos da vossa autoria que, se situarem no âmbito deste espaço, terei todo o gosto em publicar. 

No futuro, da minha parte, serão introduzidos temas mais abrangentes no âmbito da História Económica e, inclusivamente, de Economia. Mas também de História Local, já não exclusivamente de Ponte de Sor ou do Alto Alentejo, alargando-se a dois espaços que marcaram a minha vida: a freguesia de Santa Maria dos Olivais e a cidade de Tavira.

Obrigado a todos.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Balanço do primeiro «Café com Letras» - negócio corticeiro norte-alentejano

              No passado dia 16 de Março teve lugar, na Fábrica do Arroz, em Ponte de Sor, o primeiro de quatro encontros previstos para o ano de 2013, denominados «Café com Letras». A organização destes eventos está a cargo do núcleo de Ponte de Sor da Associação Nova Cultura, sendo coordenados por Carlos Manuel Faísca. Nesta primeira sessão discutiu-se o «negócio corticeiro norte-alentejano», a partir das intervenções do próprio Carlos Manuel Faísca, doutorando em História Económica, no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, sob a orientação do economista Pedro Lains, e de Pedro Mourisco, mestrando em Empreendedorismo no Instituto Politécnico de Portalegre.

(Carlos Manuel Faísca. Foto de Aníbal Oliveira)

            O primeiro comunicante, após explicar os motivos por detrás da vantagem comparativa no comércio internacional da cortiça portuguesa, abordou, numa perspetiva comparada, dois momentos cruciais do negócio corticeiro português: o seu arranque tardio no contexto europeu (1830-1914); e a ascensão de Portugal a líder mundial do setor corticeiro (1929-1960). Neste último ponto foram destacadas algumas causas estruturais para que Espanha, que gozava até então de uma posição hegemónica, tenha passado a deter um papel secundário, já que Portugal experienciou um rápido e vigoroso crescimento, graças ao qual conquistou todas as facetas deste negócio: florestal, industrial e comercial. Para o conseguir, existiu, entre outros fatores, um forte papel da política económica do Estado. Finalmente, foi também traçada a evolução regional e local deste setor, durante os últimos cento e oitenta anos.

(Pedro Mourisco. Foto de Aníbal Oliveira)

           Pedro Mourisco começou por salientar o difícil momento em que vive a economia portuguesa, com especial impacto nas regiões de interior. Por esse motivo, na sua opinião, cabe às populações locais trabalharem em conjunto para o desenvolvimento económico das regiões periféricas portuguesas já que, dificilmente, o governo central o fará. Em seguida, o segundo comunicante apresentou o seu projeto de living lab. Este consiste na criação e dinamização de um conceito estratégico para a região de Ponte de Sor, com base no Cluster de cortiça presente em Ponte de Sor. Após elucidar este último conceito, o jovem economista apresentou diversas ideias para a dinamização do Cluster de Ponte de Sor, que incluíram ainda o papel que os principais os atores locais poderão ter neste tipo de projeto. Para o atingir, Pedro Mourisco recorreu a uma análise estratégica, que, entre outras ferramentas, utilizou uma Matriz Tows, de forma a criar condições desenvolvimento para região, bem como para atrair investimento neste Cluster. Por último, foram ainda levantadas várias questões: se existe uma aposta na formação relacionada com este Cluster? Se os poderes locais têm consciência deste Cluster? E qual é o futuro de Ponte de Sor?

            Após as duas apresentações, seguiu-se, durante aproximadamente uma hora, um intenso debate acerca do presente e do futuro desta atividade crucial na economia norte-alentejana, com diversos contributos vindos de uma audiência bastante heterogénea e que contou com cerca de três dezenas de participantes. As principais conclusões prenderam-se essencialmente com a necessidade de, por um lado, se apostar na formação profissional nesta área, tal como, no passado, a Junta Nacional de Cortiça (1936-1972) o fez; e, por outro, se inverter a política económica para o setor florestal que, infelizmente, parece querer apostar em espécies onde Portugal, ao contrário da cultura suberícola, não detém uma vantagem comparativa no comércio internacional.

(Assistência. Foto de Aníbal Oliveira)

            Saliente-se que, em relação à primeira questão, Fátima Pinheiro, professora da Escola Secundária de Ponte de Sor, adiantou que aquele estabelecimento de ensino propôs, no ano transato, a constituição de uma turma de formação profissional vocacionada para o setor da cortiça, contando, para esse efeito, com o apoio dos encarregados de educação dos cerca de 20 alunos interessados. Porém, o pedido foi recusado pelo Ministério da Educação. Conclui-se então que as autoridades centrais portuguesas não estão a prestar a devida atenção a uma das principais riquezas nacionais.   

            Os «Café com Letras» irão prosseguir, em Junho de 2013, abordando a desertificação do Alentejo, com a participação de Elisa Silva (ICS/UL), a partir do exemplo das tentativas de colonização interna da região, durante o Estado Novo; a emigração científica, com a participação de Tiago Brandão (IHC da FCSH/UNL), em Setembro de 2013, tendo como base o caso de Joaquim Barradas de Carvalho, com raízes familiares profundas no concelho de Ponte de Sor; e a desigualdade social e de rendimento, com a presença novamente de Carlos Manuel Faísca, agora acompanhado por Bruno Lopes (CIDEHUS da U. de Évora), em Novembro/Dezembro de 2013.

            No final, a organização fez ainda questão de convidar os presentes a assistirem ao ciclo «Encontros com a História 2013», promovido por Ana Isabel Silva, já que as duas iniciativas são complementares. A próxima sessão terá lugar em finais de Abril, no Centro de Artes e Cultura de Ponte de Sor, com o tema “150 anos da chegada do caminho-de-ferro a Ponte de Sor”.

domingo, 10 de março de 2013

O negócio corticeiro norte-alentejano - Ciclo de «Cafés com Letras» em Ponte de Sor

No próximo dia 16 de Março, pelas 21h30, na Fábrica do Arroz, em Ponte de Sor, realiza-se o primeiro «Café com Letras» organizado por mim e pelo núcleo de Ponte de Sor da Associação Nova Cultura.

Neste primeiro encontro discutir-se-á o negócio corticeiro norte-alentejano, que, desde meados do século XIX, se constituiu como um dos principais elementos da economia regional.


Serão realizadas realizadas duas breves comunicações como forma de introduzir o tema. A primeira, da minha autoria, prende-se com a evolução histórica deste setor. Porém, como pretendo não tomar demasiado tempo, decidi escolher três aspetos que me parecem dos mais importantes: o arranque «tardio» do negócio corticeiro em Portugal, marcado também por uma certa ambiguidade da política económica do Estado; a ascensão de Portugal a líder mundial deste setor, onde o Estado, através da ação da Junta Nacional de Cortiça, teve um papel de destaque; e, por último, a evolução da geografia da indústria corticeira. Em todos estes momentos haverá um especial destaque para o caso particular do Alto Alentejo.

A segunda intervenção prevista (porque esperamos que muitos queiram e venham a intervir) ficará a cargo de Pedro Mourisco. Este apresentará um projeto de um living lab corticeiro para o concelho de Ponte de Sor.

Este encontros têm o objetivo de contribuir para um debate cívico sobre temas que exercem uma grande influência no quotidiano pontessorense, pelo que apelamos à participação da população.

quinta-feira, 7 de março de 2013

A “Real Barraca” de Longomel (1843)


O tema escolhido para os "Documentos do mês" de março vem ainda no seguimento da questão da importância de Ponte de Sor como local de passagem, tratando-se de um curioso episódio que envolveu ilustres passantes pela aldeia de Longomel, pertencente ao concelho, em meados do século XIX. Mais concretamente, em Outubro de 1843, num ambiente de contestação ao governo de Costa Cabral, este, querendo infundir confiança e aparentar normalidade, promoveu uma viagem da família real pelo Alentejo. A Rainha D. Maria II, o Rei D. Fernando e os Príncipes D. Pedro e D. João, então crianças, saíram de Lisboa no dia 4 do citado mês e ter-se-ão demorado em Évora, onde apreciaram as «antiguidades». Numa carta escrita à Rainha Vitória, de Inglaterra, D. Maria II mostrava-se impressionada com a vastidão erma do Alentejo e dava conta da hospitalidade com que foram acolhidos.

A família real regressou a Lisboa no final de Outubro, tendo então, na viagem de Alter do Chão para Abrantes, passado e parado na aldeia de Longomel. Usaram, pois, uma estrada correspondente a parte de um itinerário romano que ligava Mérida, capital da Lusitânia, a Lisboa, a chamada «Estrada Ariciense» (por Aritium Praetorium, que Mário Saa situa em Abrantes) ou «estrada dos almocreves». O caminho, que passava a Norte de Ponte de Sor, saía de Alter do Chão pela azinhaga de Abrantes, transpunha a Ribeira de Seda, seguia pelos lugares das futuras estações ferroviárias de Chancelaria e de Torre das Vargens, onde passava o Sor, e chegava a Longomel; esta aldeia ficava aproximadamente a meio caminho entre Alter (a 34 km) e Abrantes (a 25 km), o que justificará a paragem dos reais viajantes, para repousar. Dali, a estrada seguia por Vale de Água e Coalhos, dirigia-se ao Rossio de Abrantes e subia depois para o castelo desta cidade. O principal caminho de Alter a Abrantes passava por Ponte de Sor, mas era mais extenso do que este cerca de 5 km (ver Doc. 1).

A passagem dos Reis e Príncipes por Longomel levou o Governo Civil de Portalegre a ordenar ao Administrador do Concelho e à Câmara de Ponte de Sor que construíssem uma «Barraca» naquela aldeia, «com o possível asseio e decência», para que os ilustres viajantes sob ela descansassem no dia 28 de Outubro. Em sessão de Câmara de 18 desse mês, foram acordadas as medidas a tomar, nomeadamente: armar a dita Barraca, com a «decência devida a tão Altas Personagens»; oferecer-lhes um «refresco» em nome dos habitantes do Concelho; examinar o estado das estradas concelhias por onde aqueles passariam, ordenando que se fizessem os reparos necessários (ver Doc. 2).

Em sessões de Câmara posteriores, aprovou-se o pagamento de toda a despesa com a armação da Barraca, no valor de 7.725 réis (4 Novembro e 25 Dezembro) e venderam-se ao escrivão do Administrador do Concelho seis garrafas de licor que sobraram do refresco oferecido à família real, pelo preço de custo, 4.800 réis (5 Fevereiro 1849). Já em Janeiro de 1844, por proposta do Presidente da Câmara de Ponte de Sor, decidiu-se enviar à Rainha uma mensagem de «felicitação relativamente ao seu feliz regresso à Capital no seu trânsito a esta Província d’Além Tejo, e ao mesmo tempo significar-lhe os leais sentimentos, que lhe consagram os fiéis habitantes deste Concelho».

Documento 1
SAA, Mário – «Algumas grandes vias da Lusitânia: parte ocidental do sistema viário emeritense», por Mário Saa. A estrada percorrida pela família real, em 1843, entre Alter do Chão e Abrantes, com passagem por Longomel, tem origem numa via romana assinalada neste mapa, publicado na obra As grandes vias da Lusitânia: o Itinerário de Antonino Pio. Lisboa: [s.n.], 1956. Tomo I, entre p. 63-66.


Documento 2
1843 outubro 18, Ponte de Sor Ata de sessão da Câmara Municipal de Ponte de Sor, realizada a pedido do Administrador do Concelho, na sequência da ordem recebida do Governador Civil de Portalegre, para que as autoridades municipais «passassem a construir e formar uma Barraca com o possivel asseio e decencia na Aldea de Logomelo deste Concelho para Suas Magestades a Rainha e o Rei e Suas Altezas descançarem em o dia vinte e oito do corrente no seu tranzito da villa d’Alter para a villa d’Abrantes». AHMPS, Livro de Acórdãos da Câmara Municipal 1841-1845, fls. 61-62.

Nota: em cima, pormenor de Mapa geográfico da província do Alentejo e do reino do Algarve (1851), disponível em http://purl.pt/1968.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Discutir a agricultura portuguesa na longa duração

Na próxima terça-feira discutir-se-á, no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, a evolução da agricultura portuguesa dos últimos séculos. Não posso adiantar muito sobre o encontro, com exceção da comunicação da qual faço parte. Esta pretende apresentar os objetivos do Portuguese Agriculture Project, assim como uma parte do trabalho que já foi feito e, sobretudo, discutir abordagens, métodos e fontes. 

Uma das novidades deste projeto é a análise regional já que se pretende, entre outros aspetos, estimar o produto agrícola das diferentes regiões portuguesas. Este exercício permitirá continuar a investigação das dinâmicas internas portuguesas, um assunto que a historiografia portuguesa recentemente tem levantado, e que se poderão encontrar (quando sair a Revista) em Faísca, Carlos Manuel. 2013. «Desigualdade regional na Península Ibérica. Ensaio bibliográfico». Revista da Faculdade de Letras: História.



Por outro lado, existe uma grande lacuna documental que impossibilitou, até hoje, a construção de uma série quantitativa de produção agrícola, quer nacional, quer distrital, para as décadas de 70 e 90 do século XIX. Neste sentido, estamos a seguir um roteiro documental que se tem revelado moderadamente frutífero, mas será que é o mais correto? Que outras fontes existirão ainda por explorar? Estas são duas das perguntas que se vão colocar e cuja resposta depende do nosso trabalho, mas também do contributo que outros possam dar. 

Assim, se o assunto for do vosso interesse, façam o favor de aparecer!

P.S. - Neste blog introduziram-se duas novidades: a primeira é uma pequena agenda com os eventos em que os dois autores vão participar, a outra é a inclusão de um breve cv de ambos (a Ana Isabel ainda está em falta). 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Encontros com a História 2013 | Ponte de Sor como local de passagem: entre reis e pedintes (séculos XIV-XIX)


Convido todos os nossos leitores a participar na conferência subordinada ao tema acima, que realizarei no próximo sábado, dia 23 de Fevereiro, pelas 16h00, no Centro de Artes e Cultura de Ponte de Sor.

A origem e o desenvolvimento históricos de Ponte de Sor estão ligados à sua localização central no País, na confluência das rotas Norte-Sul e Leste-Oeste. Portanto, a atual cidade sempre foi um local de passagem, quer para gente anónima, que se deslocava por motivos de trabalho ou levada pela mendicidade, quer para generais e suas tropas, em trânsito por ocasião de vários conflitos, e inclusivamente para alguns dos nossos reis.

Esta iniciativa integra-se no ciclo Encontros com a História, dedicado à história local e regional de Ponte de Sor, e abrange também Oficinas de História Local, que se realizarão no decurso desta semana, destinadas aos Alunos da Universidade Sénior e a algumas turmas da Escola Secundária de Ponte de Sor, visando estimular o contato direto com as fontes documentais e com a produção historiográfica.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Ciclo de Café com Letras em Ponte de Sor - 2013

Como já tínha anunciado irei organizar, com o apoio do núcleo de Ponte de Sor da Associação Nova Culturaum ciclo de «Café com Letras» que pretende estimular, entre a população local, a reflexão e o debate sobre alguns assuntos de interesse regional, que naturalmente estão inseridos em dinâmicas de âmbito nacional e internacional. O ponto de partida é uma análise histórica de longa duração, levada a cabo por jovens especialistas, para que posteriormente o público em geral, e os pontessorenses em particular, possam contribuir para um debate sobre temas que lhes são próximos e que, ao mesmo tempo, exercem uma grande influência no seu quotidiano.



Assim, no próximo dia 16 de Março, pelas 21h30, na Fábrica do Arroz, em Ponte de Sor, discutir-se-á o negócio corticeiro norte-alentejano, que, desde meados do século XIX, se constituiu como um dos principais elementos da economia regional. Em breve enviaremos um convite com maior detalhe deste primeiro «Café com Letras».

Nos encontros seguintes será abordada a desertificação do Alentejo (Junho de 2013), a partir do exemplo das tentativas de colonização interna da região, durante o Estado Novo; a emigração científica (Setembro de 2013), tendo como base o caso de Joaquim Barradas de Carvalho, um historiador com raízes familiares profundas no concelho de Ponte de Sor; e a desigualdade social e de rendimento (Novembro/Dezembro de 2013).

A estes eventos, junta-se o ciclo de "Encontros com a História" promovido pela Ana Isabel e que terá lugar periodicamente no Centro de Artes e Cultura de Ponte de Sor. O primeiro está já marcado para o próximo dia 23 de Fevereiro, pelas 16h00.

Neste sentido, gostaríamos de convidar os nossos leitores a estarem presentes, bem como pedir-vos que divulguem, dentro das vossas possibilidades, estes eventos. 

Para mais informações visitem este espaço ou enviem um e-mail para cmsaff@gmail.com

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Cliometria: definição e um pouco da sua História


Cliometria é um termo que surgiu no início da década de 1960 (Tosh e Lang 2009, 273; Cardoso 2011, 494), no meio académico norte-americano, contando por isso com aproximadamente cinco décadas de existência. A este conceito está subjacente uma abordagem económica ao processo histórico, cujo ponto de partida é uma rigorosa especificação da hipótese de trabalho formulada a partir da teoria económica, à qual se segue uma exaustiva recolha de dados empíricos quantificáveis, tratados posteriormente através do recurso a métodos quantitativos de carácter econométrico (O’Brien 1977, 13; Cardoso 2011, 489–490). Procurou-se então introduzir na história económica métodos, conceitos e teorias derivados da economia, que, segundo os seus defensores, poderiam ultrapassar algumas das limitações dos métodos históricos tradicionais na análise das economias do passado (O’Brien 1977, 13). É muito provavelmente por este motivo que, desde o seu início, a cliometria foi também designada de «nova história económica» ou «história econométrica» (Fogel 1966; O’Brien 1977).

A entrada da cliometria no campo da história económica suscitou alguma controvérsia, tendo-se criticado o seu foco excessivamente económico que subalternizou demasiado a análise histórica em problemas que, situando-se no passado, são também objeto da história. Contudo, a abordagem cliométrica obteve um sucesso bastante significativo no seio da história económica, levando a que alguns autores tenham chegado a afirmar que esta substituiu por completo qualquer outro paradigma de investigação nesta área, tornando-se ela própria «a história económica» (Heckman 1997, 404). Ainda que nos Estados Unidos da América e, possivelmente, no espaço anglo-saxónico esta afirmação possa estar relativamente próxima da realidade, tal não será o caso da historiografia económica de determinados países europeus como, por exemplo, Espanha, França, Alemanha e Portugal (Cardoso 2011, 495–496). No entanto, mesmo nestes países, assim como no caso concreto da Península Ibérica, é atualmente comum a existência de investigação cliométrica, sendo uma das suas manifestações mais evidentes a realização periódica de encontros científicos especificamente sujeitos a esta abordagem – os Iberometrics.

O crescimento das publicações de carácter cliométrico não esteve certamente dissociado de algumas correções que esta abordagem foi implementando (Greif 1997) e, consequentemente, do decréscimo do ceticismo em relação à cliometria de um maior número de historiadores internacionais; todavia, a historiografia económica portuguesa mantém ainda, como certamente outros historiadores de outros países mantêm, algumas reservas face a esta abordagem (Cardoso 2011, 488). Neste sentido, já no início do século XXI, Fernando Rosas (Rosas 2000, 14–16) publicou, na introdução de uma das suas obras, um texto em que critica duramente a utilização desta «nova história económica», a qual já contava, à data dessa publicação, com cerca de quarenta anos de prática a nível internacional e cerca de vinte anos no seio da historiografia económica portuguesa (Cardoso 2011, 494).

Para mais leituras:

Cardoso, José Luís. 2011. «Entrevista a Jaime Reis». Análise Social 46 (200): 484–499.

Fogel, Robert William. 1966. «The New Economic History». The Economic History Review 19 (3): 642–656.

Greif, Avner. 1997. «Cliometrics After 40 Years». The American Economic Review 87 (2) (Maio 1): 400–403. doi:10.2307/2950953.

Heckman, James J. 1997. «The Value of Quantitative Evidence on the Effect of the Past on the Present». The American Economic Review 87 (2) (Maio 1): 404–408. doi:10.2307/2950954.

O’Brien, Patrick. 1977. The new economic history of the railways. London: Croom Helm.

Sardica, José Miguel. 1993. «Recensão a Carlo Cipolla. (Recensão do livro «Entre la História Y La Economia - Introducción a la História Económica)». Penélope (9/10): 259–262.

Tortella, Gabriel. 2002. Introducción a la economía para historiadores. 3a ed. Madrid: Tecnos.

Tosh, John, e Sean Lang. 2009. The pursuit of history. Harlow: Longman.

Whaples, Robert. 1991. «A Quantitative History of the Journal of Economic History and the Cliometric Revolution». The Journal of Economic History 51 (2): 289–301.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Ponte de Sor como local de passagem: entre reis e pedintes (séculos XIV-XIX)


Em fevereiro, os "Documentos do mês" do Arquivo Municipal de Ponte de Sor articulam-se com mais uma edição do ciclo “Encontros com a História”, que consistirá numa conferência proferida no Centro de Artes e Cultura no dia 23, pelas 16h00, sob o título “Ponte de Sor como local de passagem: entre reis e pedintes (séculos XIV-XIX)”. A origem e o desenvolvimento históricos de Ponte de Sor estão ligados à sua localização central no País, na confluência das rotas Norte-Sul e Leste-Oeste. Portanto, a atual cidade sempre foi um local de passagem, quer para gente anónima, que se deslocava por motivos de trabalho ou levada pela mendicidade, quer para generais e suas tropas, em trânsito por ocasião de vários conflitos, e inclusivamente para alguns dos nossos reis.

Entre os passantes mais ilustres, temos notícia, ainda no século XIV, de D. Nuno Álvares Pereira, que, de acordo com o cronista Fernão Lopes, esteve perto de ou em Ponte de Sor por duas vezes, no contexto da Crise de 1383-1385. Cerca de meio século mais tarde, em meados de 1438, seria a vez do rei D. Duarte, que, segundo Rui de Pina, «pera repayro dos caminhantes, e alguuma segurança do Regno mandava fazer huma cerca» em Ponte de Sor. Esta acabou por nunca ser concluída, provavelmente devido à morte súbita do rei, que alguns dos seus médicos associaram à passagem por Ponte de Sor, pois aqui «mostrando rijamente com a maaom direyta a altura de um Cubêlo [torreão] que hi mandava fazer, se desencaixara o braço, a que depois correra humor com que se apostemou, de que seu fim se causára». Também D. Manuel I e D. Filipe I de Portugal transitaram por esta Vila, o primeiro por altura do seu terceiro casamento, com a castelhana D. Leonor, em 1518; e D. Filipe vindo de Espanha e dirigindo-se a Tomar, em 1581. Já no final do século XVIII, início do XIX, no contexto das movimentações militares despertadas pela Revolução Francesa, Ponte de Sor foi ponto de passagem das tropas portuguesas em várias ocasiões, como indicam as despesas feitas pelo Município para assegurar travessia da Ribeira do Sor e a estadia dos militares na Vila.

Paralelamente a estas visitas pontuais, houve uma massa de gente anónima em trânsito por Ponte de Sor ao longo dos séculos, que ajudou a construir e moldar a história da Vila, desde a malha urbana, que foi crescendo ao longo da principal via de comunicação, antiga Rua Grande (atual Vaz Monteiro), até ao quotidiano animado pelos viandantes, reclamando a existência de várias estalagens e do Hospital da Misericórdia, que funcionou como albergue até final do século XIX. Os passaportes internos, forma de controlo da população e de combate à vagabundagem implementada em Portugal pela Intendência Geral da Polícia, entre 1760 e 1863, são uma fonte riquíssima para o estudo desses passantes; permitem-nos conhecer, no caso concreto do nosso concelho, quem transitava por Ponte de Sor e porquê ou para onde se dirigiam os habitantes daqui, informações que, por sua vez, são preciosas para a reconstituição da dinâmica socioeconómica desta zona na primeira metade do século XIX.

Documento 1
GÓIS, Damião de – Chronica do Serenissimo Senhor Rei D. Manoel. Lisboa: Officina de Miguel Manescal da Costa, 1749. Parte 4.ª, Cap. XXXIV, p. 512. O terceiro casamento de D. Manuel I, com D. Leonor de Castela, realizou-se por procuração no Verão de 1518, mas os cônjuges só se encontraram em Novembro. Acompanhada por uma comitiva de senhores nobres e eclesiásticos, a Rainha chegou à raia, junto ao Rio Sever, no dia 23 daquele mês e foi depois conduzida ao Crato pelos enviados do Rei, que a aguardava nessa Vila. Damião de Góis conta que, passados ali dois dias de jogos, festas e danças, «el Rei com a Rainha vierão dormir a Ponte do Sor, e ao outro dia a Chamusca», tendo depois seguido para Almeirim. Este relato é confirmado por um bilhete conservado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, dirigido pelo Almotacé-mor do Reino aos Juízes do Sardoal, em 23 de Novembro de 1518, e segundo o qual D. Manuel acabara de receber a notícia da chegada da Rainha e planeava estar em Ponte de Sor na sexta-feira seguinte, dia 26.

Documento 2
1825 Setembro 22, Ponte de Sor – Reprodução do registo de «Passaporte do Intrior para transito de Balthezar Reboxo». Registos como este permitem traçar um retrato completo das pessoas que se deslocavam no país, incluindo: nome, naturalidade e residência, profissão, estado civil, idade, características físicas (altura, formato do rosto, cor dos olhos e do cabelo), para onde viajava, por que motivo e que caminho seguiria. No Arquivo Histórico Municipal de Ponte de Sor, os livros de registo dos passaportes constituem uma série contínua, de 1813 a 1863. AHMPS, Registo de Passaportes da Ponte do Sor 1813-1831, fl. 22.



Documento 3
1858 Setembro 30, Ponte de Sor Reprodução do «Passaporte de Transito» de Ana de Jesus, natural de Abrantes, viúva, caldeireira, para as «deffirentes terras do Reino», levando em sua companhia dois filhos pelos quais respondia. Tinha 35 anos de idade, media 56 polegadas e caraterizava-se por rosto comprido, nariz e boca regulares, cabelo, sobrancelhas e olhos castanhos e cor de pele branca. O passaporte, que devia ser apresentado às autoridades civis nas terras onde a portadora pernoitasse, era válido por 30 dias. AHMPS, Passaportes internos avulsos 1850s-1860s. Agradeço as reproduções fotográficas dos Docs. 2 e 3 ao Sr. Aníbal Oliveira.