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sábado, 15 de dezembro de 2012

Património Histórico de Ponte de Sor: Os moinhos de água (II)

Tenho uma certa relação afectiva com os Moinhos de Água que se situavam (e alguns ainda se situam, apesar de inactivos) ao longo da Ribeira de Sor, no concelho de Ponte de Sor. 


Dediquei-lhes um post aqui, e umas linhas aqui: "Ao longo da primeira metade do século XX, a economia montargilense manteve o seu carácter predominantemente rural, com o processamento de produtos agrícolas a constituir uma das principais áreas de investimento da indústria local (...) embora tenha existido um esforço de maquinização da lavoura alentejana, sabendo-se, por exemplo, que em Montargil se registaram algumas debulhadoras mecânicas entre 1922 e 1950, permaneceram muitos dos modos de produção arcaicos. Tal é confirmado pelo número elevado de moinhos que continuaram a laborar e pelo facto de a indústria da panificação ter mantido a utilização de fornos de origem pré-industrial." em Faísca, Carlos Manuel. 2011. «Introdução Histórica». Em Montargil na rota do sagrado, ed Associação Nova Cultura de Montargil, 10–19. Montargil: Associação Nova Cultura de Montargil.


Finalmente consegui identificar o número de moinhos que laboravam no concelho de Ponte de Sor, antes da destruição de muitos, na freguesia de Montargil, devido à construção da respectiva barragem. Assim, o número total de moinhos identificados neste concelho ascendia, em 1952, a 45, laborando todos mais de duzentos dias por ano, com a excepção de quatro cujo número de dias de trabalho aproximava-se dos trezentos. Neste período de tempo, estes exemplos de indústrias agrícolas de carácter familiar seriam responsáveis pela moagem de 615 toneladas de milho, 250 toneladas de trigo e 33 toneladas de centeio. 

Não faço ainda ideia o que é que estes valores representam na produção total do concelho, mas é algo que se poderá descobrir, bastando consultar as Estatísticas Agrícolas publicada pelo INE, onde são discriminadas as produções concelhias. A fonte de todas estas informações é o Inquérito Agrícola e Florestal do Concelho de Ponte de Sor, publicado em 1952.

Moinhos de Água activos no Concelho de Ponte de Sor (1952)

Freguesia
Nº Moinhos
Ponte  Sor
27
Montargil
17
Galveias
1



quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Biblioteca do Arquivo Municipal de Ponte de Sor (séculos XIX-XX)


No mês de Dezembro, os "Documentos do mês" do Arquivo Municipal de Ponte de Sor são de caráter biblioteconómico e pertencem à Biblioteca do Arquivo. Esta é constituída por um conjunto de monografias e publicações periódicas datadas de meados do século XIX ao terceiro quartel do século XX, pertencentes à Câmara Municipal de Ponte de Sor e que estiveram durante os últimos anos armazenadas num dos pavilhões da Antiga Fábrica de Moagem de Cereais e Descasque de Arroz de Ponte de Sor. Estes documentos têm vindo a ser tratados desde Janeiro de 2011, começando por ser selecionados e transportados para o edifício do Centro de Artes e Cultura. Passaram então por um processo de limpeza e primeira identificação, sendo agrupados por grupos temáticos de largo espectro. De seguida, tiveram início a inventariação definitiva e a catalogação das espécies, para o que foi elaborada uma base de dados, usando o software Microsoft Access 2010 e contemplando os seguintes campos de descrição: número de registo; autor; título; local de edição; editor; data de edição; ano, número, data (para publicações periódicas); coleção; termos de indexação; cota (usando a Classificação Decimal Universal); e notas. Esta base de dados permite a realização de pesquisa por autor, título, termos de indexação e cota.

Presentemente, está já catalogada parte significativa da coleção, tendo sido inseridas na base de dados cerca de 860 obras. Trata-se sobretudo de publicações oficiais recebidas pelo Município de Ponte de Sor, desde meados do século XIX até à década de 1970, incidindo sobre diversos sectores da vida pública nacional, com os seus reflexos a nível regional e local, como as atividades económicas, o ensino, a saúde pública ou as instituições político-administrativas.

Considerou-se pertinente associar esta coleção ao Arquivo Municipal, tendo em conta o caráter de fonte histórica impressa da maioria dos seus itens, podendo assim assumir-se como precioso instrumento de apoio à investigação histórica, de âmbito local, regional e nacional. Pretende-se que a Biblioteca do Arquivo seja disponibilizada para consulta ao público, estando prevista, para os próximos meses, uma sessão de apresentação pública do respetivo catálogo informático. Para já, apresentamos três exemplares da coleção, classificados numa área designada “Fundo Local”, destinada a publicações diretamente relacionadas com o concelho de Ponte de Sor ou com a região em que se insere.

Documento 1
GRÉMIO dos Industriais Descascadores de Arroz – Grémio dos Industriais Descascadores de Arroz: Decreto-lei n.º 24.517: relatório e contas do exercício de 1935: aprovados pelo Conselho Geral na sua reunião de 19 de Fevereiro de 1936. Lisboa: Oficina Gráfica Limitada, 1936. Inclui referência à Sociedade Industrial, Lda.ª, proprietária da Antiga Fábrica de Moagem de Cereais e Descasque de Arroz de Ponte de Sor (atual edifício do Centro de Artes e Cultura) e membro do Grémio dos Industriais Descascadores de Arroz (categoria de “Industriais Descascadores”).

Documento 2
MURALHA, Pedro (dir.) – Ponte do Sôr: separata do Álbum Alentejano. Ponte de Sor: Câmara Municipal, [1930s]. O Álbum Alentejano consistiu numa publicação em três volumes que pretendia caracterizar, por concelhos, as regiões de Beja, Évora e Portalegre, difundindo «tudo quanto o Alentejo encerra em força de trabalho agrícola, industrial e mineiro». Os artigos são da autoria de diversos autores, dirigidos por Pedro Muralha, e abarcam temas variados, da economia, agricultura e indústria, à história, administração autárquica, tradições, cultura e literatura. As páginas relativas ao concelho de Ponte de Sor, também publicadas sob a forma de separata, incluem artigos de Primo Pedro da Conceição (texto base da obra Cinzas do Passado, editada décadas mais tarde) e Garibaldino de Andrade, entre outros.

Documento 3
CONSELHO de Agricultura Distrital de Portalegre Annes agricolas do Districto de Portalegre: publicados pelo Conselho d'Agricultura Districtal: 1885 (setimo anno). Portalegre: Typ. de F. C. Sanches, 1886. A criação dos conselhos de agricultura distritais foi estipulada pelo “Regulamento da agricultura districtal” (Decreto de 28 Fev. 1877). Destinavam-se a promover «o progressivo melhoramento das condições agricolas do seu respectivo districto» e uma das suas atribuições consistia na publicação anual dos chamados «annaes agricolas», que incluíam uma série de informações sobre o estado da agricultura na região em causa (como os trabalhos do Conselho de Agricultura, os relatórios de exposições e congressos agrícolas, os programas de cursos de agricultura e zootecnia, a estatística agrícola e pecuária, os preços correntes de produtos deste setor, etc.).

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Epidemias e medidas sanitárias na região de Ponte de Sor (século XIX)


No mês de Novembro, os "Documentos do mês" do Arquivo Municipal de Ponte de Sor estão relacionados com um tema de saúde pública que, sendo de âmbito internacional, teve também os seus reflexos a nível local, o das epidemias que afetaram a população e das medidas sanitárias adotadas pelas autoridades para as combater, no século XIX. Embora a documentação do Arquivo Municipal dê igualmente conta da preocupação com doenças como a varíola (as chamadas bexigas) e sobretudo a malária (ou febres intermitentes), associada à cultura do arroz no concelho de Ponte de Sor, as epidemias de maior impacto no período considerado e as que geraram maior troca de correspondência entre as autoridades locais, regionais (Governo Civil) e nacionais (Ministério do Reino e Conselho de Saúde Pública) foram as de cólera. De facto, se o século XIX foi o tempo das grandes pandemias, a cólera foi particularmente agressiva e devastadora, causando enormes taxas de mortalidade. Trata-se de uma gastroenterite infeciosa causada pela bactéria Vibrio cholerae e transmite-se pela ingestão de água ou alimentos contaminados; os principais sintomas são diarreia aguda seguida de severa desidratação. A cólera era originalmente endémica no subcontinente indiano e espalhou-se através das rotas comerciais até à Rússia, depois Europa Ocidental e daí até à América do Norte. Chegou à Europa em 1829 e em 1832 ocorreu a primeira grande epidemia, que afetou Londres e Paris terrivelmente, tendo também chegado a Portugal, onde fez mais de 40.000 vítimas. Daí em diante houve mais oito epidemias de cólera no País, sendo a doença espalhada por certas profissões de alto risco (soldados, marinheiros, mercadores, mendigos) e os seus efeitos potenciados pela falta de higiene nas casas e nas ruas, o uso de água imprópria, a concentração de pacientes em espaços pequenos nos hospitais, alimentos de má qualidade. São de destacar os surtos de 1853-56 e 1865, sendo que neste último a cólera entrou em Portugal, vinda de Espanha, pela fronteira de Elvas.

Um dos maiores contributos no combate à cólera foi a descoberta feito pelo médico britânico John Snow, que em 1854 encontrou a ligação entre a doença e água bebível contaminada e a consequente necessidade de água limpa e tratamento dos esgotos. Porém, em Portugal, em 1865, ainda não havia clara noção das verdadeiras causas da epidemia, como se deduz das recomendações das autoridades sanitárias para a prevenção do contágio e para os tratamentos a aplicar.
 

Documento 1
Lisboa, Janeiro de 1854 – «Instrucções populares contra a cholera morbus mandadas publicar pelo Conselho de Saude Publica do Reino». As primeiras 14 instruções destinavam-se à prevenção do contágio, refletindo o desconhecimento, por parte das autoridades sanitárias, das verdadeiras causas da cólera, ou seja, a ingestão de água ou alimentos contaminados. A 15.º consistia na indicação dos primeiros sintomas e das medidas a adotar depois do aparecimento da doença, sobretudo as mais urgentes, enquanto se aguardava a chegada do médico. AMPS, Correspondência recebida, 1865 Saude Publica.

Documento 2
Lisboa, 28 de Julho de 1865 – Cópia das instruções dadas pelo Conselho de Saúde Pública do Reino ao Inspetor do Distrito Sanitário Oriental de Lisboa, contendo as «providencias hygienicas e preventivas» a tomar de imediato para evitar que a epidemia de cólera morbus, então já saída de Alexandria para os outros portos do Mediterrâneo, atacasse a capital. Estas diretrizes foram depois distribuídas pelos governadores civis do País, que deviam, por sua vez, comunicá-las aos respetivos administradores dos concelhos. Assim, chegaram às mãos do de Ponte de Sor, por ofício do Governador Civil de Portalegre de 8 de Agosto, recomendando este a exata observância das instruções e informando que o Rei mandava responsabilizar os funcionários administrativos que se mostrassem negligentes em «assumpto de tão transcendente importancia». Tratava-se sobretudo de medidas de caráter policial, incidindo sobre a fiscalização de lugares públicos de hospedagem e venda de bebidas, alimentos ou medicamentos. AMPS, Idem.

Documento 3
Portalegre, 11 de Novembro de 1865 – Edital do Governo Civil de Portalegre, proibindo a realização da feira que habitualmente se realizava em Dezembro, na vila de Chancelaria, concelho vizinho de Alter do Chão, «abem da salubridade publica». Tratava-se de uma medida preventiva contra a epidemia de cólera que invadira várias povoações espanholas da raia e também já a cidade de Elvas, pois acreditava-se que a concentração de pessoas favorecia a transmissão da doença. O Governo Civil enviou vários exemplares deste edital aos administradores dos concelhos do Distrito de Portalegre, entre os quais o de Ponte de Sor, ordenando que o afixassem em lugares públicos, para difundir a notícia. AMPS, Idem.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Património desaparecido: Antiga Igreja Matriz de Ponte de Sor




No passado sábado, tive o prazer de conduzir um passeio pelo centro histórico da antiga vila de Ponte de Sor, fazendo referência a uma série de bens patrimoniais ainda existentes e a outros que, infelizmente, não chegaram até nós. Um destes é a Antiga Igreja Matriz, que foi demolida em 1887, devido ao seu avançado estado de ruína, tendo então começado a ser construída a atual Matriz (inaugurada em 1903). Já desde pelo menos meados do século XIX que o edifício da Antiga Igreja carecia de obras. A comprová-lo, temos, por exemplo, o facto de, em 1862, a Junta de Paróquia de Ponte de Sor, que tinha direito à administração dos bens das confrarias da freguesia extintas, pretender aplicar o produto da venda dos objetos e bens das Confrarias do Rosário e das Almas «aos reparos de que carece a Igreja Matris» (ofício de 1862 Junho 4).

Parece-me interessante salientar que entre os objetos vendidos estiveram peças de ourivesaria de carácter religioso, que se perderam assim por motivos muito pragmáticos e devido à pobreza da Junta de Paróquia de Ponte de Sor. Com isto, chamo também a atenção para o património móvel pontessorense que foi desaparecendo ao longo do tempo e do qual muitas vezes só temos conhecimento através da análise das fontes históricas.
Mais concretamente, segundo os respectivos autos de arrematação, foram vendidos:

o   «algum ouro dos santos despensavel, para com o seu producto ser applicado aos reparos da Egreja Matriz desta Villa», a saber: 1 cordão, 11 brincos de pescoço e 3 pares de botões das orelhas (sic), tudo pesando 37 oitavas e meia ou 131,25 gramas, no valor de 50.845 réis, comprado por um negociante de ouro (auto de 6 Outubro 1863);
o   «uma porção de prata, pertencente á Igreja Matriz desta Villa, despensavel ao uzo da mesma», «para ser seu producto applicado ao conserto da Egreja», a saber: 1 cruz, o bojo de outra, 2 cálices e 3 patenas, tudo pesando 15 marcos ou 3.442 gramas, no valor de 97.500 réis, comprado por um indivíduo de Vale de Santarém (auto de 5 Outubro 1863). É provável que esta prata tenha pertencido à Confraria das Almas, pois o alvará régio de 23 Outubro 1862 autorizava a Junta de Paróquia de Ponte de Sor a vender os bens daquela, legalmente extinta, entre os quais algumas alfaias de prata, para com produto se proceder aos «urgentes reparos de que muito carece o templo da mesma freguesia»; isto tendo em vista a informação do Governador Civil de que a Junta não tinha outros recursos para realizar a obra.

Nota: os documentos citados encontram-se no Arquivo Municipal de Ponte de Sor e integram a série da correspondência recebida pela Administração do Concelho. Na foto, localização da Antiga Igreja Matriz de Ponte de Sor, em frente ao Mercado Municipal.