Mostrar mensagens com a etiqueta Local. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Local. Mostrar todas as mensagens

sábado, 1 de dezembro de 2012

Produção Industrial de Cortiça em Ponte de Sor e rendimentos do montado pontessorense (1952)

Há dias, no âmbito do projeto "Agriculture in Portugal: Food, Development and Sustainability (1870-2010)", dei comigo perante mais de 280 inquéritos agrícolas de florestais, elaborados nos anos 1950, de outros tantos concelhos de Portugal Continental. Tenho-os, provisoriamente, no gabinete que me foi cedido no ICS/UL. Aproveitei para dar uma vista de olhos nos relatórios dos concelhos que de alguma forma têm uma relação comigo. Infelizmente, os relatórios relativos a Tavira e Lisboa (se é que houve algum destinado à capital portuguesa) não constam deste lote. Ainda assim, tenho acesso aos relatórios do concelho de Ponte de Sor e Castro Marim.

Admito que estou impressionado com o nível de detalhe da informação que estes inquéritos contêm, pois são descritas minuciosamente todas as atividades florestais, a estrutura da propriedade agrícola, a ocupação do território, toda a produção agrícola, os níveis dos salários agrícolas, as indústrias existentes e....muito, mas MUITO mais!




Só sobre o setor corticeiro, o qual pretendo estudar para um período mais recuado (1834-1914), ficamos a saber a superfície de montado em cada concelho, a quantidade de cortiça extraída, a produção industrial concelhia e os lucros daí resultantes, entre outros aspetos. Imaginar que esta informação existe para todo o território nacional, dá-me quase vontade de alterar o âmbito cronológico da minha tese, mas não o farei. O setor corticeiro português conta já com diversos estudos para o seu período mais florescente, isto é, o século XX, e o mais estimulante é investigar em terreno menos explorado.

Deixo-vos aqui informação sobre a produção industrial de cortiça, no concelho de Ponte de Sor, em 1952, e também um outro quadro que demonstra como este produto era de longe o mais importante para a economia local.

Quadro 1 - Produção industrial de Cortiça em Ponte de Sor (1952)


Nome da Empresa
Produção (arrobas)
António Rodrigues Carrusca
70.000
Empresa Industrial de Pimentão
50.000
João Lobato
12.000
Joaquim Prates
35.000
José de Matos
25.000
Manuel de Sousa Eusébio
10.000
Mundet & Cª, Lda.
280.000
Total
482.000












Quadro 2 - Rendimento retirado dos montados do Concelho de Ponte de Sor (1952)





Produto
Valor
(contos)
Cortiça
27.307
Carne de Porco
3.786
Pastagem
483
Árvores abatidas
1.030
Despejos de poda
4.680
Total
37.286




P.S. 1 - Também existem informações sobre a Fábrica de Moagem e Descasque de Arroz cujo edíficio é hoje o Centro de Artes e Cultura, mas isso fica para uma outra oportunidade.

P.S. 2 - Se alguma entidade, individual ou coletiva, estiver interessada em apoair a publicação deste relatório, pode falar comigo que, caso não existam problemas legais com os direitos de autor, a equipa do projeto está interessada em fazê-lo.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Biblioteca do Arquivo Municipal de Ponte de Sor (séculos XIX-XX)


No mês de Dezembro, os "Documentos do mês" do Arquivo Municipal de Ponte de Sor são de caráter biblioteconómico e pertencem à Biblioteca do Arquivo. Esta é constituída por um conjunto de monografias e publicações periódicas datadas de meados do século XIX ao terceiro quartel do século XX, pertencentes à Câmara Municipal de Ponte de Sor e que estiveram durante os últimos anos armazenadas num dos pavilhões da Antiga Fábrica de Moagem de Cereais e Descasque de Arroz de Ponte de Sor. Estes documentos têm vindo a ser tratados desde Janeiro de 2011, começando por ser selecionados e transportados para o edifício do Centro de Artes e Cultura. Passaram então por um processo de limpeza e primeira identificação, sendo agrupados por grupos temáticos de largo espectro. De seguida, tiveram início a inventariação definitiva e a catalogação das espécies, para o que foi elaborada uma base de dados, usando o software Microsoft Access 2010 e contemplando os seguintes campos de descrição: número de registo; autor; título; local de edição; editor; data de edição; ano, número, data (para publicações periódicas); coleção; termos de indexação; cota (usando a Classificação Decimal Universal); e notas. Esta base de dados permite a realização de pesquisa por autor, título, termos de indexação e cota.

Presentemente, está já catalogada parte significativa da coleção, tendo sido inseridas na base de dados cerca de 860 obras. Trata-se sobretudo de publicações oficiais recebidas pelo Município de Ponte de Sor, desde meados do século XIX até à década de 1970, incidindo sobre diversos sectores da vida pública nacional, com os seus reflexos a nível regional e local, como as atividades económicas, o ensino, a saúde pública ou as instituições político-administrativas.

Considerou-se pertinente associar esta coleção ao Arquivo Municipal, tendo em conta o caráter de fonte histórica impressa da maioria dos seus itens, podendo assim assumir-se como precioso instrumento de apoio à investigação histórica, de âmbito local, regional e nacional. Pretende-se que a Biblioteca do Arquivo seja disponibilizada para consulta ao público, estando prevista, para os próximos meses, uma sessão de apresentação pública do respetivo catálogo informático. Para já, apresentamos três exemplares da coleção, classificados numa área designada “Fundo Local”, destinada a publicações diretamente relacionadas com o concelho de Ponte de Sor ou com a região em que se insere.

Documento 1
GRÉMIO dos Industriais Descascadores de Arroz – Grémio dos Industriais Descascadores de Arroz: Decreto-lei n.º 24.517: relatório e contas do exercício de 1935: aprovados pelo Conselho Geral na sua reunião de 19 de Fevereiro de 1936. Lisboa: Oficina Gráfica Limitada, 1936. Inclui referência à Sociedade Industrial, Lda.ª, proprietária da Antiga Fábrica de Moagem de Cereais e Descasque de Arroz de Ponte de Sor (atual edifício do Centro de Artes e Cultura) e membro do Grémio dos Industriais Descascadores de Arroz (categoria de “Industriais Descascadores”).

Documento 2
MURALHA, Pedro (dir.) – Ponte do Sôr: separata do Álbum Alentejano. Ponte de Sor: Câmara Municipal, [1930s]. O Álbum Alentejano consistiu numa publicação em três volumes que pretendia caracterizar, por concelhos, as regiões de Beja, Évora e Portalegre, difundindo «tudo quanto o Alentejo encerra em força de trabalho agrícola, industrial e mineiro». Os artigos são da autoria de diversos autores, dirigidos por Pedro Muralha, e abarcam temas variados, da economia, agricultura e indústria, à história, administração autárquica, tradições, cultura e literatura. As páginas relativas ao concelho de Ponte de Sor, também publicadas sob a forma de separata, incluem artigos de Primo Pedro da Conceição (texto base da obra Cinzas do Passado, editada décadas mais tarde) e Garibaldino de Andrade, entre outros.

Documento 3
CONSELHO de Agricultura Distrital de Portalegre Annes agricolas do Districto de Portalegre: publicados pelo Conselho d'Agricultura Districtal: 1885 (setimo anno). Portalegre: Typ. de F. C. Sanches, 1886. A criação dos conselhos de agricultura distritais foi estipulada pelo “Regulamento da agricultura districtal” (Decreto de 28 Fev. 1877). Destinavam-se a promover «o progressivo melhoramento das condições agricolas do seu respectivo districto» e uma das suas atribuições consistia na publicação anual dos chamados «annaes agricolas», que incluíam uma série de informações sobre o estado da agricultura na região em causa (como os trabalhos do Conselho de Agricultura, os relatórios de exposições e congressos agrícolas, os programas de cursos de agricultura e zootecnia, a estatística agrícola e pecuária, os preços correntes de produtos deste setor, etc.).

Um pontessorense na comissão da Junta Nacional de Cortiça

Hoje não me vou alongar sobre o papel da Junta Nacional de Cortiça, que tem sido reconhecido* como fundamental para a ascensão de Portugal ao lugar de primeira potência mundial do setor, nem tão pouco sobre a agitação social que grassou na Primavera de 1948 no setor industrial corticeiro, sobretudo na então vila do Barreiro e na cidade de Silves. Simplesmente, porque é a "terra" da minha esposa, quero deixar uma curiosidade.


Na sequência desta mesma agitação foi nomeada, em 1949, uma nova comissão administrativa para a Junta Nacional de Cortiça. Entre os seus membros constava José Pires dos Santos, Presidente da Casa do Povo de Ponte de Sor. Ora, se algum dos pontessorenses que costumam ler este espaço quiserem acrescentar algo ao assunto, podem fazê-lo na caixa de comentários.


* Em trabalhos como:

Parejo Moruno, Francisco. 2010. El negocio del corcho en España durante el siglo XX. Madrid: Banco de España.

Pereda García, Ignacio, e Euronatura. 2009. Junta Nacional da Cortiça (1936-1972). Euronatura 2. Lisboa: Euronatura.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Concelhos com maior produção de cortiça (1941)

Como já aqui fiz notar várias vezes um dos aspectos que quero abordar na minha tese é a identificação das principais características da exploração florestal da cortiça, tendo como base os contratos de arrendamento de cortiça que se celebraram intensamente no Alentejo. Concretamente pretendo analisar a duração dos contratos, compreendendo se estes de adaptaram à natureza do ciclo produtivo; determinar quais as zonas industriais que, ao longo do período considerado, foram sendo abastecidas pela cortiça alentejana; e, por último, determinar se as grandes indústrias corticeiras conseguiram implementar uma estratégia operacional que passaria pela integração vertical, adquirindo cortiça junto do produtor como, por exemplo, parece ser o caso de George Robinson (FONSECA, 1996, p. 69) ou se, por outro lado, convergiam sobre a exploração da cortiça diferentes interesses antagónicos – de produtores, comerciantes e industriais -, perante a ausência de integração vertical, como foi assinalado para o século XX, em Portugal (BRANCO, 2005, p. 165-166).

No entanto, há um grande problema de natureza prática que é tão simples como isto: é impossível eu analisar todos os fundos dos Cartórios Notariais para cada concelho da Região Histórica do Alentejo entre 1850 e 1914! Assim, tenho que fazer uma selecção cujos critérios ainda não defini. Uma das hipóteses que estou a ponderar é escolher, entre os concelhos alentejanos, aqueles com maior produção de cortiça, pois seriam os mais representativos. Infelizmente o ano mais recuado para o qual encontrei dados com a produção de cortiça concelhia é 1941. Ainda assim, creio ser um bom indicador visto que as condições ecológicas e climáticas para a disseminação do sobreiro não se alteraram significativamente até há bem pouco tempo e, por outro lado, como para obter cortiça Amadia são necessários, pelo menos, 40 anos, se subtrair esses 40 anos estarei já dentro do meu período cronológico. Aguardo críticas a esta escolha de método e entretanto publico aqui os resultados que coligi agora mesmo.

Produção de Cortiça em 1941
Concelho Distrito Região Histórica Produção (t)
1 Montemor-o-Novo Évora Alentejo 22538
2 Santiago do Cacém Setúbal Alentejo 21938
3 Coruche Santarém Ribatejo 21252
4 Odemira Beja Alentejo 13850
5 Ponte de Sor Portalegre Alentejo 11711
6 Mora Évora Alentejo 10150
7 Grândola Setúbal Alentejo 9629
8 Avis Portalegre Alentejo 8337
9 Alcácer do Sal Setúbal Alentejo 8104
10 Chamusca Santarém Ribatejo 8080

Fonte: 
Estatística Agrícola 1946. Lisboa, INE: 1947

 

sábado, 1 de setembro de 2012

Arquivo Municipal de Ponte de Sor | Documentos do mês (Setembro) | "A Fonte da Vila: se bebe na bica… fica em Ponte do Sor"

A presente mostra documental faz parte de uma série apresentada mensalmente, sob o título Documento(s) do mês, que visa divulgar o património documental e histórico do Município de Ponte de Sor.

Este mês, associamo-nos às Jornadas Europeias do Património, uma iniciativa anual do Conselho da Europa e da União Europeia, que envolve cerca de 50 países, com o objetivo de sensibilizar os cidadãos europeus para a importância da salvaguarda do património. Neste sentido, cada país elabora anualmente um programa de atividades a nível nacional, a realizar em Setembro, acessível gratuitamente ao público. A DireçãoGeral do Património Cultural, enquanto coordenador nacional das Jornadas Europeias do Património, propõe para 2012 o tema “O Futuro da Memória”, com o qual pretende promover a aproximação do público ao património cultural, no seu sentido mais amplo, realçando a sua importância enquanto memória e documento da história e do desenvolvimento das sociedades e também o seu papel para a construção do futuro (ver Memorando da DGPC, disponível em http://www.igespar.pt).

O Município de Ponte de Sor participa nestas comemorações organizando, no dia 29 de Setembro, a “Rota do património histórico edificado da antiga vila”, com um percurso pedestre orientado pelo centro histórico de Ponte de Sor e paragem em vários pontos de interesse, entre os quais a Ponte sobre a Ribeira de Sor, a Fonte da Vila, as Capelas de S. Pedro e das Almas, a Igreja Matriz e os Paços do Concelho.

Os documentos do mês são alusivos a um dos mais emblemáticos pontos de interesse patrimoniais de Ponte de Sor, a Fonte da Vila, que data possivelmente do século XVIII. A referência mais antiga que se conhece à Fonte é feita pelo médico Francisco da Fonseca Henriques, na obra Aquilegio Medicinal, publicada em 1726 (ver Doc. 1). Na documentação do Arquivo Municipal, as mais recuadas menções à Fonte datam de 1759 (escritura de aforamento de uma propriedade concelhia situada junto àquela) e 1835 (Auto de Vereação da Câmara impondo vigilância para garantir a qualidade da respetiva água). Uma fotografia publicada na década de 1930 (ver Doc. 3) revela-nos um monumento ligeiramente diferente do atual, tendo a Fonte sofrido algumas intervenções, sobretudo nas armas régias que a ornamentam e que foram mandadas alterar após a Implantação da República (1910), para remoção da coroa, símbolo do poder monárquico destituído (ver Doc. 2).

Documento 1
HENRIQUES, Francisco da Fonseca – Aquilegio medicinal, em que se dá noticia das agoas de Caldas, de fontes, rios, poços, lagoas e cisternas do Reyno de Portugal e dos Algarves que, ou pelas virtudes medicinaes que tem, ou por outra alguma singularidade, são dignas de particular memoria. Lisboa Ocidental: Off. de Musica, 1726. Cap. III («Das fontes frias»), n.º XIV, p. 85. Mais antiga referência à Fonte da Vila, aludindo às suas propriedades medicinais: «Na Villa de Ponte do Soro ha huma fonte que tem conhecida virtude para os achaques de pedra, e areas, como se tem experimentado muytas vezes.»

Documento 2
Fotografia da Fonte da Vila, publicada na década de 1930 em: Concelho de Ponte do Sôr: sua história, seus valores. Separata de Álbum Alentejano. Dir. Pedro Muralha. [S.l.]: Câmara Municipal de Ponte de Sor, [1930s], p. 6. Legenda: «Fonte de antiquíssima construção. Cliché de J. Reis.»



Documento 3
Ponte de Sor, 20 de Abril de 1911 – Em sessão da Câmara Municipal, por proposta do presidente, Dr. Henrique José Caldeira Queirós, «foi deliberado que immediatamente fosse derrubada a corôa que existe no frontespicio da fonte da villa». Não sabemos se esta deliberação chegou a ser posta em prática, mas é certo que as armas régias esculpidas no centro do frontispício da Fonte já sofreram algumas intervenções ao longo dos anos (ver AMPS, Actas das sessões da Camara Municipal de Ponte do Sôr. 1909-1913, fl. 91v).