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quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A exploração de cortiça no Alto Alentejo (1850-1914): uma história de algarvios

Tenho estado a trabalhar num artigo sobre o mercado corticeiro ibérico (1850-1914), em que um dos nossos objetivos é identificar quais as indústrias e regiões que se abasteceram da cortiça norte alentejana. O estudo abrange ainda a Andaluzia, cujos dados foram já publicados por um autor espanhol, e a Extremadura, a cargo do meu co-autor e amigo Francisco Parejo Moruno da Universidad de Extremadura. A mim, naturalmente, cabe-me analisar o Alto Alentejo. 

Neste momento tenho, através da recolha que foi feita por parte da Fundação Robinson de Portalegre, um pouco mais de 550 contratos de arrendamento de cortiça, registados nos Cartórios Notariais daquela cidade. 

Os resultados até agora, não fugindo totalmente às nossas expectativas, têm sido, no entanto, um pouco surpreendentes, já que praticamente as duas únicas regiões que se abasteceram de cortiça portalegrense, foram o Algarve e a própria região de Portalegre - esta quase exclusivamente pela ação de George Robinson.

Destino da cortiça “portalegrense” (1846-1914)
Distrito/País
Réis Transacionados[1]
%
Portalegre
204.753.853
46,55
Algarve
192.848.238
43,84
Lisboa
37.769.566
8,59
Espanha
2.489.115
0,57
Évora
2.041.240
0,46


Entretanto comecei a recolher os mesmos dados para Ponte de Sor. Ainda só tive tempo para analisar 40 contratos, mas destes 36 foram celebrados tendo algarvios como compradores. E são os mesmos que encontrei para Portalegre, naturais de São Brás de Alportel, Santa Bárbara de Nexe ou Loulé. A exploração de cortiça no Alto Alentejo parece ser, até ver, uma história de gentes do Algarve.

(Vista de Silves, em 1934. No centro da imagem a corticeira Villarinho & Sobrinho)


Vejamos como terminará isto tudo.




[1] Os valores encontram-se expressos em preços constantes de 1860-63. Para este cálculo utilizámos o índice de preços de David Justino. JUSTINO, David, Preços e Salários em Portugal (1850-1912), Lisboa, Banco de Portugal, 1990. Para os anos de 1913 e 1914, omissos nesta publicação, extrapolámos o índice tendo em conta a inflação média dos dez anos anteriores.

sábado, 18 de agosto de 2012

Mercado corticeiro ibérico: os casos do Sudoeste Espanhol e Alto Alentejo (1850-1914)


Este é o título provisório de uma proposta provisória de um trabalho que elaborarei com o meu amigo Francisco Parejo Moruno, Professor de Economia da Universidad de Extremadura, em Badajoz. A contextualização e a problematização é a seguinte:   


(Quadro da autoria do Rei D. Carlos do final do século XIX)

A exploração industrial de cortiça iniciou-se em França, no final do século XVII, devido à necessidade do fabrico de rolhas para a indústria vinícola local (PAREJO MORUNO, 2010, p. 15). Contudo, devido à distribuição geográfica do montado de sobro, a indústria corticeira expandiu-se, já em meados do século XVIII, até à Catalunha, visto que a produção francesa rapidamente se revelou insuficiente para satisfazer o aumento da procura de rolhas de cortiça (PAREJO MORUNO, 2010, p. 15). No entanto, com a produção vinícola em crescimento exponencial durante o século XIX (SIMPSON, 2011, p. 1-2), também a produção catalã não foi suficiente para abastecer as necessidades da indústria corticeira. Assim, a procura por matéria-prima estendeu-se às regiões com maior superfície de montando, ou seja, o Sudoeste Espanhol (SERRANO VARGAS, 2009, p. 606-607) e Portugal (MARTINS, 2005, p. 246).
      
Com este trabalho procuraremos identificar as principais características da exploração florestal da cortiça, tendo como base os contratos de arrendamento de cortiça que se celebraram intensamente nestas regiões, num esforço comparativo entre três regiões distintas: Andaluzia, Extremadura e Alto Alentejo. Concretamente pretendemos analisar a duração dos contratos, compreendendo se estes de adaptaram à natureza do ciclo produtivo; determinar quais as zonas industriais que, ao longo do período considerado, foram sendo abastecidas pela cortiça andaluza, extremenha e alentejana; e, por último, determinar se as grandes indústrias corticeiras conseguiram implementar uma estratégia operacional que passaria pela integração vertical, adquirindo cortiça junto do produtor como, por exemplo, parece ser o caso de George Robinson (FONSECA, 1996, p. 69) ou se, por outro lado, convergiam sobre a exploração da cortiça diferentes interesses antagónicos – de produtores, comerciantes e industriais -, perante a ausência de integração vertical, como foi assinalado para o século XX, em Portugal (BRANCO, 2005, p. 165-166).

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Grupos Empresariais em Portugal durante o Estado Novo

Nos últimos 6 meses colaborei com o projeto "Grupos Empresariais em Portugal durante o Estado Novo", acolhido pela FE/UNL. Ao que tudo indica estou de saída, pelo que não tive oportunidade de aprofundar convenientemente o meu conhecimento sobre este tema, de forma que não posso adiantar grande coisa sobre as conclusões deste projeto, para além daquilo que seriam meras banalidades. No entanto, não quis deixar de assinalar este tema de investigação, que é muito mais pertinente do que se possa pensar.


O projeto apresentará em breve as suas conclusões sobre os seus dois principais eixos de investigação: Por um lado, reconstituir o processo de criação e desenvolvimento dos chamados grupos económicos e, por outro, averiguar se a criação desta estrutura empresarial deu algum contributo para o rápido crescimento económico verificado durante o Estado Novo.


Quanto a mim, parece que vou estar ligado a um projeto mais duradouro temporalmente e, sobretudo, próximo da minha investigação de doutoramento, permitindo-me também, a médio prazo, analisar e publicar alguns trabalhos, mas disso falarei na devida altura. 

terça-feira, 17 de julho de 2012

Desigualdade de Rendimento no Alto Alentejo do século XVIII

Não é bem este o título, mas é este o principal problema que eu e o meu colega Bruno Lopes vamos procurar resolver no próximo encontro de História Económica e Social da APHES. Partindo de livros de décimas, um imposto universal sobre o rendimento, vamos procurar mensurar as desigualdades de rendimento da sociedade norte alentejana de Antigo Regime, procurando também descortinar se existiam grandes diferenças entre o meio rural e urbano e, dentro deste último, entre pequenas vilas (Galveias, Avis , Arraiolos ou Ponte de Sor) e uma cidade (Portalegre). 

Com o aproximar do evento (está marcado para os dias 15 e 16 de Novembro de 2012) regressarei a este tema, sobretudo para explicar este imposto, mas por agora fica apenas aqui uma imagem de um livro de décima de Portalegre (1725). Trata-se da contribuição dos habitantes da Rua do Mercado (como vem assinalado no início da lauda).

(Carregando na imagem consegue-se aumentar)

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Creating Wine: The emergence of a World Industry, 1840-1914.

Nas últimas duas semanas andei a ler um estudo sobre o desenvolvimento da indústria do setor vinícola, da autoria de James Simpson. Deixo aqui um resumo do seu conteúdo:


James Simpson oferece ao leitor um estudo sobre a indústria do vinho, um tema em que é um reconhecido especialista, contando já com diversas obras publicadas sobre o setor vitivinícola. Desde logo a escolha do subtítulo – The emergence of a World Industry, 1840-1914 – desvenda um pouco do conteúdo da obra, pois, como o autor demonstra, foi precisamente durante este período que a indústria vinhateira ganhou uma dimensão mundial. Assim, se no início do século XIX o comércio internacional de vinho se restringia ao segmento de vinhos espirituosos e de alta qualidade como, por exemplo, o Vinho do Porto ou o Champagne, nas vésperas da Grande Guerra não só vários tipos de vinho eram transacionados nos mercados internacionais, como também as principais regiões produtoras tinham-se expandido até ao Continente Americano, ao Norte de África e à Oceânia.
            Na realidade, a partir da segunda metade do século XIX, a indústria vinhateira sofreu importantes alterações que, em grande parte, se mantêm até à atualidade. É precisamente nestas modificações que James Simpson centra a sua análise, examinando com grande detalhe os principais países produtores de vinho europeus – França, Espanha, Itália e Portugal -, a evolução do comércio internacional deste produto e o crescimento da produção no “Novo Mundo” – Estados Unidos, Chile, Argentina e Austrália. Desta forma, o livro encontra-se dividido em quatro partes, a primeira relativa ao segmento do vinho “comum”; segue-se a análise da exportação de vinho na europa e, sobretudo, do falhanço, no longo prazo, na abertura de novos mercados dentro do continente europeu; a terceira parte incide na reação dos produtores das regiões mais prestigiadas a fenómenos como a adulteração e a fraude; e, finalmente, uma quarta parte estuda o desenvolvimento da indústria vinhateira fora dos limites europeus.
            O autor começa por assinalar como o negócio vinhateiro europeu novecentista, em torno do vinho “comum”, foi marcado pela integração de mercados, fruto do desenvolvimento dos meios de transporte e do aumento da procura, contribuindo decisivamente para o aparecimento de uma especialização regional e da internacionalização do seu comércio, mas, sobretudo, também pelas consequências da disseminação de doenças e pragas, como o oídio e a filoxera. Na realidade o impacto destas crises transformou radicalmente a estrutura de produção daquele tipo de vinho, assim como a sua comercialização. Em resposta à morte das vinhas desenvolveu-se, especialmente em França, uma aposta no conhecimento científico que possibilitou um maior conhecimento da planta e, paralelamente, a obtenção, a médio prazo, de uma maior qualidade de vinho. O relativo sucesso desta aposta trouxe ao setor um novo modelo organizativo, visto que passou a ser necessário um maior investimento em capital, sobretudo em alfaias agrícolas e químicos, e um know-how mais aprofundado. A indústria vinhateira parecia então estar destinada a grandes companhias cuja estratégia operacional passaria pela integração vertical, todavia, os pequenos produtores lograram associar-se permitindo a manutenção do seu papel preponderante neste setor.
            Simultaneamente, outros produtores de uvas reagiram de forma diferente optando pela importação de resistentes vinhas americanas, enquanto alguns produtores de vinho e comerciantes apostaram na adulteração e na fraude como forma de satisfazerem a procura de vinho, num período marcado por grandes quebras de produção. Esta resultou na perda de alguns mercados importantes, como o mercado inglês, e numa quebra momentânea de consumo no mercado francês, devido à volatilidade da qualidade do vinho e à falta de informação fiável por parte do consumidor.
Ao mesmo tempo, os produtores de vinhos espirituosos e de alta qualidade, também estes afetados por estas práticas, associaram-se corporativamente de forma a pressionar o Estado na criação legal de regiões demarcadas, assim como na fiscalização do seu cumprimento. Nas regiões onde estas pretensões foram acedidas, como França e Portugal, houve uma recuperação do consumo vinícola e a criação de cooperativas de produtores que mantiveram, até os nossos dias, uma estrutura produtiva organizada em milhares de pequenas unidades, por vezes de carácter familiar.
            Fora da Europa, não obstante a tentativa de introdução de vinhas datar do início do período colonial, a indústria do vinho só se desenvolveu no final do século XIX, coincidindo com a introdução de novas tecnologias na produção e da viticultura científica, que permitiu combater com eficácia as infeções bacterianas típicas de climas quentes; com o aparecimento de economias de escala, devido ao crescimento da população; e, por último, com a queda dos custos marginais.
Aproveitando algumas condições mais favoráveis que os seus congéneres europeus não possuíam como, por exemplo, uma maior produtividade da vinha e o reduzido preço da terra e, simultaneamente, evitando desvantagens como o elevado custo do trabalho através de uma produção mais extensiva, esta nova indústria vinhateira parecia destinada a dominar os mercados internacionais. No entanto, com exceção da Austrália, a produção fora da Europa acabou por se restringir à substituição de importações, fornecendo, com bastante sucesso, os seus mercados internos, em grande expansão, tendo beneficiado ainda, para esse efeito, de pautas aduaneiras fortemente protecionistas.
Ao contrário da produção europeia, devido à necessidade de fortes investimentos em capital, surgiram no “Novo Mundo” grandes companhias que dominaram a indústria vinhateira. De facto naquelas regiões, perante a ausência de uma estrutura tradicional baseada em pequenos produtores, o aparecimento significativo destes estava limitado pelos avultados investimentos em tecnologia, que possibilitou a produção de vinho em climas quentes; em transportes, devido às grandes distâncias que o produto tinha que percorrer até ao chegar ao consumidor final; e em estratégias de marketing na obtenção de novos consumidores, sobretudo nos países de influência anglo-saxónica onde a população não tinha por hábito consumir vinho.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

O negócio corticeiro no Alentejo: Produção florestal e Indústria (1834-1914)

Este é o título da minha investigação de doutoramento que esperançosamente será desenvolvida nos próximos três anos, no âmbito do Plano Inter Universitário de Doutoramento em História (PIUDH), cuja instituição de acolhimento será o Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS/UL). Como já fui aceite pelas referidas instituições, resta-me saber se tenho uma das duas condições essenciais para poder investigar: uma bolsa de doutoramento ou uma bolsa num projecto de investigação que me permita prosseguir com a minha investigação.

De qualquer forma este tema tem suscitado algum interesse, pelo que fui convidado a apresentá-lo no Seminário de História Económica e Social "Santiago Zapata Blanco" na Universidad de Extremadura, em Badajoz. Convite semelhante chegou a semana passada da Fundação Robinson, com sede em Portalegre, pelo que farei uma comunicação sobre este assunto no próximo sábado, dia 30 de Junho, pelas 10h30.

Deixo-vos aqui um resumo e o respectivo cartaz como forma de vos convidar a assistir.



Durante o século XIX, a produção agrícola nacional e, em particular, a alentejana, conheceu globalmente um crescimento que assentou, essencialmente, no aumento da área agrícola. Nesse período e, sobretudo, na segunda metade de Oitocentos, também o produto industrial português cresceu, seguindo a indústria alentejana o mesmo sentido. Neste contexto, as atividades corticeiras ganharam uma importância preponderante na economia portuguesa e, especialmente, na economia regional alentejana, quer do ponto de vista florestal, levando, por exemplo, a que a área de sobreiro duplicasse e passasse a constituir-se como o principal fator de cálculo das propriedades alentejanas, quer em termos industriais, já que a indústria corticeira se tornou na principal atividade secundária alentejana, representando, a nível nacional, cerca de metade das unidades industriais e do produto bruto industrial.
Assim, a cortiça assumiu-se como um dos principais produtos exportados pela economia portuguesa pois, nos primeiros anos do século XX, era o terceiro produto com maior peso nas exportações nacionais . Este movimento de especialização na exportação de produtos primários foi transversal a outras economias periféricas europeias como, por exemplo, a Dinamarca, a Hungria, a Suécia, a Espanha ou a Grécia. Em alguns casos, a exportação em grande escala de produtos primários, nos quais estes países possuíam uma vantagem natural, permitiu às respetivas economias alcançar o nível dos países mais desenvolvidos, devido ao efeito de arrastamento das exportações no conjunto de cada economia. Embora o mesmo não tenha sucedido com o setor corticeiro português, este foi-se impondo na economia nacional até que, em meados do século XX, correspondia a mais de 20% das exportações portuguesas.
Com tamanha importância na economia nacional, o setor corticeiro português conta com diversos estudos, porém centrados no seu período mais florescente, isto é, o século XX. No âmbito cronológico que nos propomos estudar, existe uma escassez de trabalhos científicos cujo objeto de estudo seja especificamente o negócio corticeiro português e, em particular, o caso alentejano.
      De forma a colmatar esta lacuna, o autor apresentou um projeto de doutoramento, entretanto aceite, no Plano Inter-Universitário de Doutoramento em História, que incide sobre o desenvolvimento do negócio corticeiro no Alentejo, durante o século XIX. Assim, esta comunicação divide-se em duas partes. A primeira, essencialmente de contextualização, procura demonstrar a pertinência do tema para o estudo da economia portuguesa e da economia alentejana de Novecentos. Já a segunda, apresenta os principais problemas por detrás da investigação que agora se vai iniciar, bem como a extrema importância dos dados levantados pela Fundação Robinson, no âmbito do projeto ARQROB, para o sucesso da mesma. 

quinta-feira, 22 de março de 2012

O movimento Precários Inflexíveis (e outros)



Eu tenho tudo para apoiar activamente o movimento Precários Inflexíveis, ou quaisquer outros que, numa lógica semelhante, têm surgido um pouco pela sociedade portuguesa. Fui operador de call-center, fui bolseiro, fui estagiário e sou bolseiro. Ou seja, sou o retrato perfeito de alguém cuja vida laboral se pauta pela ausência de direitos em relação aos demais trabalhadores. Para o exemplificar basta referir que nos 6 meses em que tive desempregado, sem direito a qualquer subsídio, praticamente esgotei os meus recursos financeiros. Isto, porque ao contrário da maioria dos meus amigos, cometi o crime de constituir uma família e, vejam lá, de me reproduzir!

Assim, eu seria o candidato ideal a apoiar as acções deste movimentos e, provavelmente, de me juntar activamente na sua luta. No entanto, se na realidade eu me identifico com o principal motivo da constituição destes movimentos - a precariedade laboral que atinge principalmente os mais jovens e, ao mesmo tempo, contrasta com a rigidez que favorece os mais velhos -, um conjunto de posições secundárias têm feito com que me afaste deles. 

Concretamente posições sobre o aborto, feminismos exacerbados, entre outros. Tratando-se de temas que claramente fazem parte da agenda política dos partidos de esquerda radical, são estes últimos que na realidade controlam estes movimentos.

Como não sou partidário e, inclusivamente, tenho alguma repulsa pela “partidocracia” em que vivemos, não me sinto confortável em colaborar com os Precários Inflexíveis ou outros quaisquer movimentos do mesmo género. Mas é com pena que o digo, pois acho que parte do trabalho que têm feito é louvável, além de extremamente necessário, pois agora mais do que nunca é imperativo lutar pela nossa própria sobrevivência! Sim, porque é mesmo disso que se trata, pelo menos no meu caso, de sobrevivência! 

segunda-feira, 19 de março de 2012

Um roubo chamado EDP

Quando existe um monopólio do lado da oferta, o monopolista é favorecido por uma procura inelástica, isto é, a quantidade adquirida pelos consumidores varia pouco consoante o preço do bem ou serviço que é oferecido. Isto deve-se, por um lado, à necessidade que o consumidor tem em obter aquele bem e, por outro, à difícil substituição deste por outro similar que satisfaça as mesmas necessidades que o consumidor apresenta. É exactamente o que se passa com o sector da energia em Portugal, já que praticamente só existe uma empresa que fornece energia - um bem essencial na sociedade contemporânea para o qual não existe qualquer alternativa - a EDP.

Agindo livremente, o monopolista vende ao preço um mais elevado e, inclusivamente, não lhe convém produzir mais de forma a não baixar o seu preço pelo que assim se compreende, em parte, os elevados custos que a energia tem em Portugal.

No entanto, perante monopólios naturais, como é o caso do sector da energia, o estado costuma deter as respectivas empresas, pois parte-se do princípio que os lucros da empresa monopolista acabam indirectamente por beneficiar a sociedade de uma forma geral.

Agora que a EDP foi privatizada só existem duas soluções para terminar com este roubo: ou se nacionaliza outra vez a EDP, ou se criam condições favoráveis para que outras eléctricas possam operar livremente no mercado português.

Como não me parece que nenhuma vá surgir em breve continuaremos a ser legalmente roubados sine die.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Metro de Lisboa na falência técnica, mas porquê?

No início do ano a CP decidiu encerrar a Linha do Leste devido à sua falta de utilização, o que se traduzia em custos incomportáveis para a empresa. Embora seja discutível o encerramento de uma linha que serve uma região com poucas alternativas de mobilidade, na realidade, nas poucas viagens que fiz entre Ponte de Sor e Abrantes, nunca vi mais de dezena e meia de passageiros na única composição que percorria a distância entre as duas cidades, num total de mais de 30 km.

Já em Lisboa, a Linha do Oriente do Metropolitano, mais conhecida por Linha Vermelha, tem cerca de 8 Km. As composições que à hora de ponta fazem este percurso possuem 6 carruagens. Eu todos os dias faço, por duas ocasiões, a viagem Olivais-Saldanha ou Olivais-S. Sebastião, consoante os meus deveres profissionais o exigem. Todos os dias as composições vão praticamente cheias e, por vezes, como ocorreu hoje de manhã, vão sobre-lotadas. As carruagens (ML99) têm uma capacidade para 185 passageiros. Ou seja, hoje comigo seguiam cerca de  1100 passageiros. 

Ora, se no primeiro caso é fácil compreender o avultado prejuízo que a prestação de um serviço de transporte público acarretava para a CP, ficando, por isso, a discussão do seu encerramento ligado apenas a questão de ordem política - valerá a pena ou não manter um serviço altamente deficitário para servir as regiões mais pobres e despovoadas? -, já no segundo custa-me imenso compreender os enormes prejuízos do Metro de Lisboa, isto é, se o Metro se encontra na falência não será certamente por falta de procura.

Num momento em que a gestão de empresas públicas se encontra debaixo de fogo, é fácil apontar o dedo aos administradores do Metro. Não sei será esse o problema, pois não possuo informações suficientes para o saber,  porém, perante estes números, a ideia é bastante sedutora. 

sábado, 3 de março de 2012

Estágios como forma de combater o desemprego: a receita de sempre levará aos resultados do costume


Quanto tiver uma oportunidade gostava de explicar ao Ministro Álvaro Santos Pereira que apostar, mais uma vez, em estágios para combater o desemprego jovem, não é mais que tentar esconder o sol com a peneira. Eu fui estagiário na Administração Pública durante um ano e, como eu, tenho imensos amigos que também já o foram, quer no sector público, quer no sector privado. Invariavelmente o estágio traduz-se no aproveitamento de trabalho qualificado a baixo custo - a remuneração é mais baixa -, onde o estagiário não dispõe dos mesmos direitos dos demais trabalhadores - segurança social, auxílio em situação de doença, baixa médica - e, no final, o estagiário acaba desempregado sem qualquer apoio ficando numa situação financeira extremamente difícil. 

Foi assim nos casos que conheço e não vejo motivo porque agora será diferente. O governo adianta que dará um "incentivo" caso o estagiário seja  contratado, porém, embora desconheça o conteúdo deste incentivo, duvido que este trará quaisquer consequências práticas. Na realidade existem empresas, públicas e privadas, que fazem dos estagiários e de outros planos semelhantes - como o odioso POC -, parte importante da sua força de trabalho, pois recorrem a estes esquemas sucessivamente, acabando por nunca contratar ninguém.

Na realidade todos perdem - a economia, os estagiários e respectivas famílias e, no limite, Portugal - pois os únicos beneficiados são as empresas que recorrem a este esquema e o governo que pode apresentar estatísticas de desemprego mais amigáveis, já que os estagiários não são considerados desempregados, embora também não sejam trabalhadores. Estão, como os bolseiros de investigação científica, num limbo muito difícil de definir.

Enfim, com soluções iguais só poderemos ter resultados iguais, será que é preciso um génio para compreendê-lo?

P.S. - Se alguém se interessar por esta questão na caixa de comentários posso descrever detalhadamente um esquema destes que conheci de perto.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O tempo da outra Troika


As mais recentes estimativas da evolução produto português não são nada animadoras, já que neste momento apontam para uma queda a rondar os 3,3%, o segundo pior desempenho da economia portuguesa desde, pelo menos, a Segunda Guerra Mundial. Parece que Portugal não se anda a dar muito bem com as receitas desta Troika, contudo, foi outra a Troika responsável pela maior queda da economia portuguesa. Estávamos então em 1975 e após um conjunto de nacionalizações, ocupações de terra e coisas parecidas, a economia portuguesa registou uma queda de 4,3%.

Foi então que a Revista Time fez, pela terceira e que eu saiba última vez, uma capa dedicada a Portugal - as outras duas foram com Oliveira Salazar (1958) e Spínola (1974). Com Vasco Gonçalves, Otelo Saraiva de Carvalho e Costa Gomes, alcunhando-os de "Lisbon Troika", o periódico norte-americano assinalava a "ameaça comunista" que então se fazia sentir sobre Portugal.

Será que vamos bater este triste recorde? E em caso afirmativo teremos, mais uma vez, "direito" a uma capa da Time? Aceitam-se apostas!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Projecto turístico da albufeira de Montargil


Anteontem tive oportunidade de passar os olhos pelo Público, e embora não tenha feito nada mais do que realmente passar os olhos, li uma reportagem sobre o falhanço do projecto turístico do Alqueva. De forma automática, a minha mente estabeleceu a comparação com o caso de Montargil, uma Albufeira com mais de 50 anos e, tal como a sua congénere do Baixo Alentejo, tem prometido uma revolução turística que continua, em parte, por cumprir. Não que a albufeira não tenha atraído alguns investimentos turísticos, no entanto, creio que todos estão de acordo que estes foram reduzidos e, infelizmente, muitos têm vindo a falhar. Para piorar o cenário correm alguns rumores sobre o possível encerramento do CS Hotel do Lago, o maior e mais luxuoso dos diversos investimento turísticos feito nas margens desta barragem.

Espero sinceramente que o CS mantenha a sua actividade e, dessa forma, traga cada vez mais turistas a Montargil e ao Alto Alentejo. Contudo, queria tecer algumas considerações que, na minha opinião, prejudicam o turismo na zona de Montargil, no caso de empreendimentos de luxo como o CS Hotel do Lago ou do projecto falhado do Charcas Lagoon Resort.

Ao contrário do Presidente da Câmara, eu não compreendo porque é que alguém que está disposto a pagar mais de 120 euros por noite opte por Montargil, em detrimento de qualquer destino no estrangeiro ou, dentro do território nacional, na praia, na montanha e no campo. Eu não faria pelo simples facto que, para além de uma barragem e de uma paisagem agradável, na realidade Montargil e o restante concelho de Ponte de Sor, à primeira vista, pouco mais têm para oferecer. Não dispondo de património histórico visitável ou de qualquer outra actividade que seduza o visitante como, por exemplo, pode com facilidade encontrar-se no Sotavento Algarvio, no triângulo Évora-Elvas-Vila Viçosa ou nas aldeias históricas das Beiras. 

Contudo, o Alto Alentejo é fértil em património histórico (Alter, Crato, Avis, Portalegre, Belver) e mesmo Ponte de Sor tem algum potencial por explorar como, por exemplo, os moinhos de água. Podem ainda surgir outras actividades de carácter lúdico e recreativo, das quais a empresa Azenhas de Seda são um raro exemplo. Só assim, na minha opinião, se pode fidelizar o público que tem possibilidade de escolher com facilidade outros destinos.

Em relação a um segmento com menores recursos económicos, creio que a barragem tem feito o seu papel, sendo visível o sucesso da Orbitur. É sempre mais fácil agradar quem não tem outras possibilidades de escolha e, consequentemente, quem desconhece outras realidades.

Pessoalmente espero, num futuro a médio prazo, contribuir para o estabelecimento da indústria turística no concelho de Ponte de Sor e já dei uma modesta contribuição. Em Junho de 2011, a Associação Nova Cultura e a Staurós, contando com o apoio da Câmara Municipal, lançou uma obra que descreve o património histórico religioso da freguesia de Montargil. Trata-se da obra "Montargil na Rota do Sagrado" e  fui o autor da introdução histórica. Um dos objectivos era exactamente de divulgar entre os turistas este património. Para o conseguir é ainda necessário que o mesmo esteja visitável, pelo menos na época alta. Eu sei que a logística é muito difícil, mas recordo-me que Câmara Municipal de Tavira consegue ter, durante o Verão, cerca de 30 monumentos abertos ao público recorrendo a um programa de "Férias Activas" entre os estudantes do ensino secundário.

Fica aqui esta ideia e as minhas opiniões, agora espero as vossas.....


segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Um triste (re)encontro de amigos


Na passada sexta-feira dois amigos de longa data, por sinal um "casal" de irmãos, abriram um pequeno bar na Marina Sul da Expo. Creio que foi a solução que ambos encontraram para combater a situação de desemprego em que actualmente se encontravam. Tendo estado afastado de Lisboa há cerca de um ano e meio, esta inauguração revelou-se a oportunidade ideal para reencontrar velhos amigos e conhecidos que, de certa forma, cresceram comigo e, consequentemente, cujo percurso acompanhei.

Ainda que tenha apreciado bastante a companhia de todos, que ache o local bastante agradável e que, provavelmente, serei um cliente frequente, fiquei um pouco triste por saber das dificuldades porque muitos agora passam. Para além dos donos fiquei a saber do GC que está há dois anos desempregado, e nas suas próprias palavras já tentou de tudo, tendo ido a entrevistas de todas as maneiras e feitios - com barba, sem barba, bem vestido, mal vestido, só lhe falta ir nu; o PL, recém-casado, cujo contrato está a terminar e vê como solução a emigração para Bruxelas deixando em Lisboa a esposa; o FP também um desempregado de longa duração e que aos 47 anos já lhe restam poucas hipóteses de o deixar de o ser; e, por último, posso falar do meu caso, que sempre me vou safando, umas vezes melhor, outras pior, todavia, sempre sem quaisquer direitos daqueles que alegadamente foram "adquiridos" como, por exemplo, subsídio de férias, de desemprego ou qualquer tipo de assistência na doença. 

Infelizmente podia dar muitos mais exemplos mas fico-me por estes.

Fizeram tão mal ao país e, sobretudo, aos seus filhos mais jovens. Que iremos nós fazer perante tudo isto?

P.S. - Penso que pelo menos os proprietários deste espaço vão ter sucesso. 

domingo, 15 de janeiro de 2012

O “ouro português”: a evolução do negócio corticeiro em Portugal


(Parte 4: O triunfo português e a nova geografia industrial corticeira (1929-1960))

Nos trinta anos que vão desde o início da Grande Depressão (1929) até 1960, três profundas alterações ocorrem no negócio da cortiça. Em primeiro lugar, deve-se assinalar o progressivo abandono desta actividade por parte dos países não produtores de matéria-prima; em segundo lugar, a quebra da actividade corticeira em Espanha; e, por último, o crescimento desta indústria em Portugal, tornando o país luso o líder mundial não só na extracção de cortiça, bem como na sua transformação, alterando a estrutura da indústria nacional que até então se dedicava mais à exportação de produtos em bruto ou semitransformados.
Durante os anos 1930, a descoberta de produtos sintéticos que substituíram as aplicações de cortiça ao nível do isolamento e revestimento afectaram a produção de aglomerados. Estes eram a principal actividade da indústria corticeira nos países desenvolvidos e uma boa parte da espanhola, enquanto Portugal tinha mantido até então um forte pendor na produção de rolha o que ajuda a explicar, mas apenas em parte, algumas destas mutações. No entanto, o problema é muito mais complexo, especialmente, na inversão dos papéis dos dois países ibéricos. 
Durante o período considerado Espanha conheceu algumas graves crises conjunturais e, sobretudo, alterações estruturais responsáveis pela agonia das corticeiras espanholas. A primeira das crises conjunturais foi, desde logo, a Grande Depressão que, tal como no período da Grande Guerra, causou uma quebra do comércio internacional e a adopção de medidas proteccionistas nos principais mercados consumidores de cortiça (Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, França, Rússia). Neste cenário as exportações espanholas foram mais prejudicadas, já que as exportações portuguesas de cortiça em bruto ou semitransformada eram menos penalizadas nas diversas pautas aduaneiras. Todavia, pode-se afirmar que a Grande Depressão afectou os dois países, embora com proporções diferentes, o que já não acontecerá durante a Guerra Civil Espanhola (1936-39).
Será durante a Guerra Civil espanhola que, pela primeira vez, Portugal se tornará o principal país corticeiro do globo. Para além dos efeitos naturais deste duro conflito bélico, existiu uma separação, durante os três anos da guerra, entre a zona de transformação de cortiça situada na Catalunha e dominada pelo lado Republicano, e a área de produção situada na Extremadura e Andaluzia e controlada pelos Franquistas. Perante a impossibilidade de fornecer a indústria catalã, os produtores extremenhos e andaluzes viraram-se para a indústria lusa, através de um comércio ilegal de contrabando com foco na fronteira Cedillo-Montalvão, frequentemente com a conivência das autoridades portuguesas.
A indústria portuguesa aproveitou este período conturbado da História de Espanha para conquistar diversos mercados à custa dos seus rivais espanhóis. Após o final do conflito era de esperar um certo incremento das exportações espanholas, porém, o hiato entre as exportações lusas e espanholas não parou de aumentar. Para explicar esta situação é necessário compreender as alterações estruturais do negócio corticeiro nos dois lados da fronteira que, sem qualquer dúvida, favoreceram os portugueses. Vários foram os factores responsáveis por esta situação sendo difícil hierarquizá-los. Sumariamente pode-se enumerar a actuação coerente da entidade reguladora do sector, a Junta Nacional de Cortiça, por comparação com a confusão institucional do lado espanhol; a maior abertura da economia portuguesa ao exterior por oposição à rígida autarcia franquista que permitiu, por um lado, a importação de alguns materiais essenciais para a indústria corticeira e cuja relação qualidade/preço em muito superaram os seus congéneres de origem espanhola à disposição da indústria daquele país e, por outro, possibilitou aumentar a oferta de matéria-prima quando a produção do mercado interno português deixou de ser suficiente para abastecer a enorme indústria que entretanto se criara; a política aduaneira lusa, que favoreceu as exportações de cortiça transformada em detrimento das exportações de cortiça em bruto, quando em Espanha o lobby dos produtores florestais conseguiu o contrário; e, por último, o custo mais reduzido da mão-de-obra portuguesa, num sector que necessita de mão-de-obra intensiva e onde esta representa entre 13% a 27% dos custos finais, consoante a época.
Nos “anos de ouro” da cortiça em Portugal ocorreram também importantes mudanças a nível interno. Assim, existiu uma forte deslocalização das corticeiras em direcção à região Norte, concretamente ao distrito de Aveiro e, sobretudo, em torno de Santa Maria da Feira. Embora outras regiões tenham conhecido algum crescimento como, por exemplo, são os casos do Algarve e Setúbal, nenhuma experienciou um aumento tão espectacular como a referida região. No Inquérito Industrial de 1957-59 existiam, no Distrito de Aveiro, cerca de 4500 trabalhadores ligados ao ramo corticeiro (22% do total nacional) distribuídos por várias centenas de empresas especializadas no fabrico de rolhas (44% da produção nacional de rolhas e apenas 5% de outros produtos manufacturados).
Embora Santa Maria da Feira não se situe especialmente perto da região produtora, reuniu um conjunto de factores a seu favor: uma boa rede de transportes terrestres e marítimos; uma tradição industrial que vinha desde finais do século XVIII; a disponibilidade imediata de mão-de-obra devido ao seu recente crescimento demográfico; a acção de uma grande empresa, a Amorim&Irmãos, hoje líder mundial do sector; e, finalmente, o factor mais decisivo, a existência de salários mais baixos, facto institucionalizado oficialmente pelo governo em 1941, através da publicação legal do regime salarial do sector corticeiro. Já referimos a importância do custo da mão-de-obra na estrutura de custos destas indústrias, ora em seguida reproduzimos a respectiva tabela salarial.
No caso norte-alentejano, para além da Robinson e de uma filial da Mundet, sem administração autónoma, inaugurada em Ponte de Sor em 1927, o sector corticeiro pautava-se pela existência de pequenas fábricas que operavam, na maioria dos casos, como intermediários numa cadeia comercial mais vasta dominada pelos grandes operadores internacionais. A sua actividade estendia-se da compra de cortiça à venda de produtos que constituíam matéria-prima para a indústria que se encontrava em rápida transformação – prancha, apara e os quadros. Novamente a realidade alentejana reflectiu o panorama nacional, ou seja, a criação de novos empreendimentos teve um pico durante os anos 1940 para de seguida, a partir do final dos anos 1950, se acentuar a caducidade das licenças industriais, acelerando-se este movimento na década de 1960. Desta forma, muitas pequenas indústrias encerraram ou deslocalizaram-se para outros centros corticeiros mais importantes como a Margem Sul e, sobretudo, em direcção ao distrito de Aveiro e a Santa Maria da Feira.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

A motivação do Homem por Adam Smith


Adam Smith (1723-1790) foi um filósofo e economista escocês numa época onde tal ainda era possível. Tive o prazer de ler as duas obras mais conhecidas deste autor; na totalidade, An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations; e, de forma parcial, The Theory of Moral Sentiments.

Wealth of Nations é considerado o primeiro trabalho de economia e, devido sobretudo a esta obra, Smith é encarado como o fundador da ciência económica. No entanto, publicada numa época onde o conhecimento científico ainda era relativamente reduzido, permitindo que um grande pensador pudesse dominar várias áreas em simultâneo, e imbuída pelo espírito iluminista, Wealth of Nations possui algumas reflexões de carácter quase filosófico.

Hoje trago-vos uma sobre a natureza humana que tive que a transcrever mal a li, pois acho-a genial. Na minha opinião, o que estão prestes a ler resume grande parte daquilo que somos, mas deixo à vossa consideração outras possíveis opiniões. Leiam, vale mesmo a pena.

“ (…) O cachorro afaga a mãe, o pequeno cão de estimação procura de mil formas atrair a atenção do dono, que está a jantar, quando quer que ele lhe dê comida. O homem usa, por vezes, dos mesmos artifícios dos com os seus congéneres e, quando não tem outra maneira de os levar a agir de acordo com os seus desejos, procura, por meio do servilismo e da adulação, obter a sua boa vontade. Não tem, contudo, tempo para fazer isto a cada momento. Numa sociedade civilizada ele necessita constantemente da ajuda e cooperação de uma imensidade de pessoas, e a sua vida mal chega para lhe permitir conquistar a amizade de um pequeno número. Em quase todas as outras espécies animais, cada indivíduo, ao atingir a maturidade, é inteiramente independente e, no seu estado normal, não necessita de ajuda de qualquer outro ser vivente. Mas o homem necessita quase constantemente do auxílio dos seus congéneres e seria vão esperar obtê-lo somente da sua bondade. Terá maior probabilidade de alcançar o que deseja se conseguir interessar o egoísmo deles a seu favor e convencê-los de que terão vantagens em fazer aquilo que ele deles pretende. Quem quer que propõe a outro um acordo de qualquer espécie, propõe-se conseguir isso. Dá-me isso, que eu quero, e terás isso, que tu queres, é o significado de todas as propostas desse género; e é por esta forma que obtemos uns dos outros a grande maioria dos favores e serviços que necessitamos. Não é da bondade do homem do talho, do cervejeiro ou do padeiro que podemos esperar o nosso jantar, mas da consideração que eles têm do seu próprio interesse. Apelamos, não para a sua humanidade, mas para o seu egoísmo, e nunca lhes falamos das nossas necessidades, mas das vantagens deles. (…) ” 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Que soluções adoptam os mais jovens para sobreviver?

Quero iniciar um ciclo de entrevistas e de exposição de casos pessoais de jovens portugueses no que diz respeito às suas actividades profissionais. Numa altura em que o desemprego e o subemprego entre os jovens é seguramente superior a 40%, pretendo divulgar as mais diversas estórias, das mais bem sucedidas às mais trágicas, dos que emigraram e dos que se recusam a emigrar, daqueles que estudaram "ciências sociais" e de engenheiros, dos que não estudaram e etc.

Caso algum de vós queira expor a vossa estória pessoal de forma pública ou anónima basta contactarem-me.

P.S. - Sim, tal como fazem os ingleses, faço a distinção entre História, um ramo do saber que estuda o passado humano, e estória, uma sequência de eventos.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O ódio irracional contra os ricos


Caros leitores hoje tinha planeado avaliar o sector cultural do concelho de Ponte de Sor. Contudo, tenho que fazer uma pequena pausa para dar a minha opinião sobre a deslocalização da Jerónimo Martins para a Holanda.

O Estado português pessimamente gerido aumentou, somente no século XXI, a carga fiscal em cerca de 37%! Ou seja, em média um contribuinte que no ano 2000 pagava 1000 euros anuais de impostos, hoje paga, produzindo o mesmo, 1370 euros. 

Perante esta situação a oposição toda critica a excessiva carga fiscal, considerando-a como um factor de perda de competitividade da economia portuguesa, têm razão. Porém, os que conseguem chegar aos lugares executivos das primeiras medidas que tomam é precisamente o aumento dos impostos. Foi assim com Pedro Passos Coelho, foi assim com José Pinto de Sousa, foi assim com Durão Barroso e foi assim com Guterres. 

Portanto, na minha opinião, acho que esta deslocalização só peca por tardia, até porque Soares dos Santos vinha pedindo há vários anos para não aumentarem mais os impostos sob o risco de acontecer isto mesmo. 

Isto é a explicação lógica de uma acção legal que foi tomada. Agora vejamos o ponto de vista moral que parece ter ofendido alguns super-portugueses patriotas que não discutem a Nação. 

De facto é prejudicial para portugal e, por extensão, para os portugueses esta deslocalização mesmo que a maioria dos impostos do grupo JM continue a ser paga em Portugal. Admito então a vossa indignação caso sejam coerentes com esta postura ultra-patriótica.

Assim, pessoas que abastecem os seus veículos em bombas de gasolina espanholas junto à fronteira portuguesa fugindo, desta forma, aos impostos nacionais; que compactuam com fuga aos impostos não pedindo a respectiva factura sempre que levam o seu animal ao veterinário ou contratam um pedreiro para uma obra em suas casas; os próprios profissionais liberais que não passam o respectivo recibo; aqueles que estão sempre à espera de uma cunha, para si ou para os seus, do Presidente da Câmara ou do Assessor do Ministro, mas que ficam indignados quando esta vai para o vizinho do lado; portugueses que passam a vida enfiados na loja do chinês contribuindo para um negócio que, por um lado, está isento de impostos e, por outro, é competitivo devido ao recurso a trabalho escravo, lamento mas têm que estar CALADOS!

Num país em que a economia paralela é cerca de 20% do PIB, e em que quando descobrimos que alguém foge aos impostos em vez de o denunciarmos perguntamos como é que se faz, é preciso ter muita LATA para se criticar o empresário Soares dos Santos.

Na realidade o que vocês têm é um ódio irracional aos ricos semelhante tendo, por isso, uma postura muito semelhante à do Bloco de Esquerda. No lugar dele fariam exactamente o mesmo (eu já o tinha feito há mais tempo). Meus amigos, algumas das coisas que descrevi são ilegais, o que ele fez não!

Quem nunca cometeu nenhum dos "pecados" que descri que lance à vontade a primeira pedra, os outros por favor calem-se que falsos moralismos só vos fica mal.

A Bem da Nação!

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O “ouro português”: a evolução do negócio corticeiro em Portugal


(Parte 3: As primeiras décadas do século XX (1900-1929)

                Os primeiros anos do século XX trazem uma novidade técnica que revolucionou a indústria da cortiça, a descoberta do aglomerado de cortiça. Este, patenteado pela firma alemã Grünzweig & Hartmann e, quase em simultâneo, fabricado também nos Estados Unidos pela Armstrong Cork Company, será responsável pela diversificação dos produtos de cortiça – agora utilizada também em aplicações como isolante e de revestimento na construção civil -, pela mecanização da transformação de cortiça e, consequentemente, pelo aparecimento de novas grandes corticeiras e do aumento investimento externo em Portugal neste sector.

            Os primeiros países que produziram o aglomerado (França, Estados Unidos, Alemanha) detinham um potencial industrial e tecnológico muito superior ao português. No entanto, não dispondo da matéria-prima eram obrigados à sua importação, ao que se somavam os custos indissociáveis do comércio internacional, isto é, os custos com o transporte e as respectivas tarifas aduaneiras. Assim, algumas multinacionais optaram por se fixar em Portugal como é o caso da Mundet, cuja principal unidade em território nacional foi inaugurada em 1906 no Seixal.

            A produção no início do século XX continua a crescer com base na mesma estrutura de sempre, onde predomina a preparação de cortiça e o fabrico de rolhas. Porém, com a Grande Guerra (1914-18), a indústria corticeira nacional atravessa uma grande crise devido, por um lado, ao afrouxamento natural do comércio internacional e, por outro, pelo facto que entre os principais beligerantes se encontravam também os maiores importadores de cortiça a nível mundial. Terminado o conflito, Portugal conheceu um período de inflação galopante acompanhado de uma forte desvalorização da moeda o que, de certa forma, amorteceu o aumento de custos provocado pelo crescimento desmesurado dos preços. Ou seja, os corticeiros lusos estiveram em condições competitivas razoáveis e, mal a procura internacional regressou em larga escala, puderam efectuar transacções rentáveis.

            Foi precisamente esta última situação que ocorreu durante a década de 1920, quando a procura mundial de aglomerados cresceu de uma forma significativa. É neste período, por exemplo, que a Mundet abre uma segunda fábrica dedicada somente a este produto no Montijo.

            Esta época caracterizou-se ainda por alguma deslocalização geográfica da indústria corticeira em direcção aos grandes portos atlânticos como a região de Lisboa (Tejo), Setúbal (Sado) ou Porto (Douro). Tal deveu-se ao desenvolvimento da rede de transportes, permitindo que deixasse de ser essencial que as principais fábricas se situassem junto da região produtora. Ainda assim, no distrito de Portalegre, subsistiram algumas corticeiras com o já inevitável destaque para a Robinson de Portalegre, o único empreendimento de grande dimensão do distrito.

Indústria de cortiça no distrito de Portalegre em 1923

Concelho Nº Empresas Nº Trabalhadores
Ponte de Sor 1 24
Portalegre 1 600
Sousel 1 1
Total 3 625

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O “ouro português”: a evolução do negócio corticeiro em Portugal


(Parte 2: a segunda metade do século XIX)
A segunda metade do século XIX caracterizou-se pela forte expansão das actividades corticeiras não só em Portugal, bem como em Espanha. Neste contexto, Portugal manteve-se sobretudo como exportador de cortiça em bruto, não obstante o desenvolvimento de uma indústria de preparação de cortiça e, inclusivamente, de uma indústria de transformação de cortiça. Assim, na viragem para o século XX, a cortiça transformada já representava cerca de 23% do total das exportações nacionais cujo mercado preferencial era o Reino Unido seguindo-se os Estados Unidos, a Alemanha e a Rússia. O aumento do peso da cortiça na indústria nacional elevou-a ao terceiro produto mais exportado, sendo apenas superada pelo vinho comum (16%) e pelo tradicional vinho do Porto (25%). Naturalmente o número de estabelecimentos fabris e de operários aumentou também de forma considerável de um total de 70 trabalhadores em 1840, para cerca de 5000 em 1900; e de 45 fábricas em 1880, para um total de 115 em 1900.
Contudo este crescimento não foi uniforme, acentuando-se a partir dos anos 1880, período em que ocorreu um significativo melhoramento das infra-estruturas públicas, a erradicação final das estruturas sociais e económicas do Antigo Regime, a constante desvalorização do escudo que estimulou as exportações e, a nível internacional, o aumento da procura mundial de cortiça.
O incremento importância da cortiça no contexto português nos finais de novecentos foi suficiente para que se tenha colocado, por parte de alguns historiadores económicos, a hipótese deste sector poder ter liderado o desenvolvimento da economia portuguesa, caso se tivesse aumentado ou a sua produção total, ou a proporção de cortiça transformada em território nacional. No entanto, mesmo que Portugal conseguisse fabricar toda a matéria-prima disponível, o valor acrescentado seria de apenas 0,3% do PNB e, inclusivamente, a duplicação da mão-de-obra industrial corticeira que daí adviria traduzir-se-ia num aumento a nível nacional de uns escassos 2,2%. Quanto ao aumento da oferta de matéria-prima esta estava limitada, por um lado, à natural inelasticidade resultante da lentidão da formação do sobreiro e, por outro, pela escassez de terrenos adequados à expansão do montado suberícola. Ou seja, embora já importante na economia portuguesa, o negócio corticeiro não reunia as condições necessárias para retirar Portugal do atraso económico que se verificava em relação aos países mais desenvolvidos, e que acentuou durante todo o século XIX.
No Distrito de Portalegre esta época caracterizou-se pela expansão do número de pequenos estabelecimentos fabris de preparação de cortiça e de uma grande fábrica de produção de rolhas – a Fábrica Robinson de Portalegre. Esta resultou da aquisição da pequena fábrica dos Reynolds por parte de George Robinson na década de 1840. Acompanhando o crescimento do sector, a Robinson empregava cerca de 2000 trabalhadores em 1900 e começava a esboçar a sua acção social filantrópica, por exemplo, com a abertura de uma creche e a fundação de uma corporação de bombeiros.  

sábado, 24 de dezembro de 2011

O “ouro português”: a evolução do negócio corticeiro em Portugal


          Aproveitando a nomeação do sobreiro como árvore nacional iniciarei um breve resumo do negócio corticeiro português desde as suas origens até ao 25 de Abril. Hoje deixo-vos com a primeira parte que corresponde ao final do século XVIII e início da centúria de oitocentos.


(Parte 1: A primeira metade do século XIX)
            A origem da transformação da cortiça remonta ao século XVIII quando, na região francesa de Champagne, o monge beneditino Pierre de Perignon produziu um vinho espumoso cuja conservação exigia uma garrafa de vidro e uma rolha de cortiça. Este vinho, cuja procura aumentou devido ao facto de ser bastante apreciado pela nobreza francesa, foi o responsável pelo nascimento da indústria corticeira em França. No entanto, por um lado, a reduzida área de montado de sobreiro naquele país e, por outro, a natural baixa elasticidade da oferta de cortiça relacionada com o alargado período de crescimento do sobreiro forçaram a expansão do negócio, numa primeira fase, até à Catalunha e, posteriormente, ao resto de Espanha e a Portugal.
            Assim, nas primeiras décadas do século XIX a Catalunha era a região onde se concentrava grande parte da indústria mundial de cortiça. Já Portugal, não contado com as condições que a Catalunha dispunha para o estabelecimento de uma indústria transformadora como, por exemplo, o ambiente industrial necessário ou a necessária densidade demográfica na região de extracção de cortiça, limitava-se ao papel de fornecedor de cortiça. Neste período, mais de 98% das exportações corticeira lusas eram de matéria-prima em bruto tendo como principal mercado o Reino Unido (82%), e como mercados secundários a Rússia, Alemanha, Holanda e Estados Unidos, onde esta seria então transformada.
            No Alto Alentejo, seguindo o contexto atrás descrito, tratou-se de um período de extracção de cortiça cujos proprietários florestais acabavam por exportar para cidades britânicas como, por exemplo, Halifax onde George Robinson detinha já uma produção industrial considerável. Ainda assim, em Portalegre existia, desde 1835, uma pequena fábrica de cortiça instalada no Convento de São Francisco, adquirido após a extinção das Ordens Religiosas no ano anterior, propriedade de uma conhecida família inglesa, os Reynolds, trata-se do embrião do que virá a ser a Fábrica Robinson. (continua…)