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quarta-feira, 2 de julho de 2014

Criando os chaparrais: dois séculos de montado de sobro no Alentejo


No próximo dia 5 de Julho, pelas 16h00, na Biblioteca Municipal de Ponte de Sor, será apresentado o livro da minha autoria «Criando os chaparrais: dois séculos de montado de sobro no Alentejo», através de uma conferência que incidirá naturalmente no conteúdo do mesmo.


O livro, prefaciado pelo Eng. Hugo Hilário, aborda, em pouco mais de 50 páginas, a evolução do montado de sobro alentejano ao longo da história, com o objetivo de conceder ao leitor uma visão geral sobre a «construção» do montado de sobro de uma forma despretensiosa e simples,mas séria e historiograficamente rigorosa.




Este sistema agro-florestal (e ecossistema), tal como ele se apresenta hoje – sem dúvida a principal imagem identificadora de grande parte do Alentejo –, não é mais do que o resultado de séculos de ações e transformações do Homem sobre a natureza. A uma primeira fase mais marcada pela destruição, opôs-se uma fase de construção do montado de sobro, cujas origens remontam a meados do século XVIII, mas que apenas se generalizou durante o século XIX aquando da valorização da cortiça como produto industrial. A obra acompanha assim as vicissitudes do montado de sobro, com especial incidência nos últimos duzentos anos, dando o devido destaque à ação de entidades privadas, às diferentes intervenções do Estado e, sobretudo, às consequências que daí advieram para um dos mais importantes setores da economia regional e nacional, visto que é em Portugal que o sobreiro encontra as melhores condições no planeta para o seu desenvolvimento.

Integrado na coleção «Chaparando: conversas à sombra de um sobreiro» da editora Apenas Livros, este é o primeiro número de uma coleção composta por «livros de bolso» e exclusivamente dedicada a temas alentejanos.





O livro será vendido pelo preço de 4,35 € e no lançamento será dado um marcador de livros em cortiça.

Por último, deixo-vos ainda um vídeo promocional que fizemos do evento https://www.youtube.com/watch?v=bBgMzaT1vp0

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Os primórdios da indústria corticeira em Ponte de Sor (1894-1964)


           Texto publicado na edição de Março de "A Ponte".

             Não obstante a sua presença no comércio internacional desde, pelo menos, a época medieval, a exploração sistemática de cortiça iniciou-se em França, no final do século XVII, devido à necessidade do fabrico de rolhas como forma de fornecer a produção vinícola local. Com o crescimento mundial do consumo de vinho, a indústria corticeira expandiu-se, já em meados do século XVIII, para a Catalunha e a Sardenha e, inclusivamente, até países não-produtores de cortiça, como, por exemplo, o Reino Unido e a Alemanha.
            
            O «renovado» negócio corticeiro chegou ao nosso país somente no final da primeira metade do século XIX. A proximidade com a matéria-prima era, à época, um dos principais fatores de localização industrial. Nesse sentido, desde «cedo» que no Alto Alentejo se fixaram algumas importantes corticeiras. O exemplo mais conhecido é a fábrica portalegrense de George Robinson, que já laborava em 1848, mas cuja fundação datará de 1840, por iniciativa de Thomas Reynolds, o seu primeiro proprietário.
            
           Aproveitando uma zona de intensa produção de cortiça, algumas das maiores multinacionais do mundo estabeleceram diversas unidades industriais no nosso concelho que, desde que existem registos, foi o principal produtor desta matéria-prima no distrito de Portalegre. Tratavam-se, habitualmente, de unidades preparadoras, mas com alguma dimensão. Foi o caso da multinacional britânica Henry Bucknall & Sons que, em 1894, já mantinha uma fábrica de preparação de cortiça nas Barreiras, seguindo-se, pouco depois, em 1902, a abertura de uma fábrica da família Reynolds, também de origem britânica. É de assinalar que Henry Bucknall foi um grande «capitão de indústria» a tal ponto que, aquando da sua morte, o New York Times dedicou-lhe uma pequena biografia no seu obituário. No entanto, talvez o caso mais conhecido, até ao estabelecimento da Amorim & Irmão, foi o da multinacional catalã Mundet que, ao entrar no mercado português no início do século XX, sentiu necessidade de ter várias unidades industriais junto da matéria-prima, tendo escolhido Ponte de Sor como um dos locais para esse efeito. Assim, em 1927, foi inaugurada, junto da atual rua D. José Mundet, uma fábrica empregando 30 trabalhadores, mas ampliada mais tarde para cerca de centena e meia.




            Em simultâneo, várias indústrias de pequena dimensão, com recurso a capital nacional, muitas vezes de carácter regional, têm vindo a funcionar no nosso concelho. Uma das primeiras parece ter sido a fábrica de José Pedro Pereira fundada, em 1907, na atual Rua do Rossio, passando mais tarde a funcionar junto do extinto Campo de Jogos Matuzarense. Este tipo de unidades multiplicou-se, funcionando, por vezes, como subsidiárias das grandes fábricas de capitais estrangeiros e, em 1952, para além da Mundet, outras seis corticeiras laboravam em Ponte de Sor. Algumas destas foram fundadas por descendentes de negociantes de cortiça algarvios que, em meados do século XIX, se deslocaram até Ponte de Sor como forma de obterem a matéria-prima com que forneciam o parque industrial corticeiro algarvio, com especial destaque para a zona de São Brás de Alportel. São os casos, por exemplo, da fábrica de António Rodrigues Carrusca que, em 1952, transformou 1050 toneladas de cortiça, ou da fábrica de Manuel de Sousa Eusébio. Outro exemplo é a Empresa Industrial de Pimentão, ainda hoje em atividade na Rua Manuel Adegas, que, nesse mesmo ano, transformou 750 toneladas de cortiça, setor que acabaria por abandonar alguns anos mais tarde. Quanto à Mundet, a sucursal de Ponte de Sor encerrou em 1964, enquanto a casa-mãe do Seixal teve um final dramático, em 1988, quando deixou no desemprego centenas de trabalhadores.
            
           Muito mais haveria para dizer relativamente a este assunto. Fica, no entanto, a ideia de que Ponte de Sor é historicamente um dos principais centros corticeiros de Portugal, tendo este setor marcado indiscutivelmente a economia e a sociedade local. Existe, portanto, uma secular tradição florestal e industrial, com um know-how associado, que continua a dar frutos e, sinceramente, espero se acentue ainda mais no futuro próximo para o bem comum da nossa comunidade.  

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Entre Ingleses e Algarvios: a compra de cortiça no «mato montargilense» oitocentista

“As grandes tiragens são compradas pelos grandes industriais e fabricantes, e as pequenas por um aluvião de compradores algarvios, que de muitas parcelas adquiridas em várias herdades chegam a dispor de porções importantes”. (Picão, 1903)
           
            Foi desta forma que José da Silva Picão descreveu, em 1903, na clássica obra «Através dos Campos: usos e costumes agrícolas alentejanos», o mercado florestal de cortiça do Alentejo oitocentista. De facto, a afirmação do autor elvense, ainda que não sustentada empiricamente por qualquer estudo de carácter quantitativo, parece comprovar-se nos municípios que tenho vindo a estudar. Era assim no concelho de Portalegre, onde os grandes industriais, representados quase em exclusivo pela firma de origem britânica Robinson Cork Grewers, partilhavam a liderança da aquisição de cortiça no «mato» com inúmeros pequenos industriais algarvios.

Gráfico 1 – Distribuição percentual da quantidade de cortiça adquirida no concelho de Portalegre (1848-1914)



            O mesmo se verificava no concelho de Ponte de Sor, onde, desta feita a Robinson era substituída, como a principal «representante» das grandes multinacionais corticeiras, pela firma Henry Bucknall & Sons, igualmente, como o nome denúncia, de origem britânica.

Gráfico 2 – Distribuição percentual da quantidade de cortiça adquirida no concelho de Ponte de Sor (1857-1909)



            Resta esclarecer a forma como foram obtidos estes dados, até porque, desta forma, o leitor compreenderá uma das principais particularidades do mercado florestal de cortiça no século XIX. A aquisição de matéria-prima, ao contrário do que ocorre atualmente, realizava-se essencialmente através da celebração de contratos de arrendamento de cortiça na árvore. Esta característica estendia-se não só a todo o Sul de Portugal, como também era bastante frequente nas principais regiões corticeiras espanholas: Extremadura e Andaluzia. Consequentemente, quer se tratassem de grandes ou pequenos industriais; quer fossem de origem portuguesa, espanhola, britânica ou norte-americana, todos os compradores celebraram milhares de contratos de arrendamento de cortiça nos diversos cartórios notariais dos principais municípios ibéricos produtores de cortiça.
            Assim, esta documentação contém bastante informação sobre o funcionamento do mercado florestal de cortiça, permitindo, desde logo, análises relativamente simples, diretas, mas pertinentes como a identificação dos principais compradores de cortiça. Por outro lado, também questões complexas podem ser abordadas: a aferição da eficiência económica deste tipo de contratos, a identificação de determinadas estratégias empresariais, entre outras. Na gestão empresarial destacam-se, por exemplo, a integração vertical ou a constituição de redes comerciais, cujas repercussões se estendem à formação do preço da cortiça e aos fatores de localização industrial.


Figura 1 - Tiradores de cortiça (Séc. XIX)


Fonte: Menéres, Clemente - 40 annos de Traz-Os-Montes.

As propriedades montargilenses não constituíram exceção ao cenário já descrito. De forma alternada, foram realizados, por parte de industriais algarvios, centenas de arrendamentos de montantes relativamente modestos e, em simultâneo, grandes contratos quase sempre assinados em nome da Henry Bucknall & Sons. Assim, por exemplo, em 1857, na Herdade da Amieira, José Brito da Mana, natural de São Brás de Alportel, adquiriu o direito às tiragens de cortiça daquela propriedade por um período de 9 anos, mediante o pagamento de 208 mil réis ao seu proprietário, José Maria Ferreira. Posteriormente, em 1877, a Henry Bucknall & Sons, através do seu representante local, Manuel Tomás, residente em Nisa, explorou, por um período de 8 anos, a cortiça produzida na Herdade de S. Martinho, cabendo ao seu proprietário, António Rosado, a quantia de 2 contos (milhões) de réis. Este último contrato, ainda que o montante se tenha cifrado numa quase decuplicação do exemplo anterior, fica muito aquém dos maiores contratos celebrados pela multinacional britânica no concelho de Ponte de Sor.

            Para o demonstrar basta referir que Francisco Vaz Monteiro arrendou, em 1894, por um período de 12 anos, a cortiça de mais de uma dezena das suas propriedades, que se estendiam desde Avis, passando por Montargil, e até Ponte de Sor, pela quantia de 43 milhões de réis, o equivalente ao salário anual de mais de 450 trabalhadores agrícolas, visto que, nesse ano, o salário médio diário daqueles rondaria os 340 réis. Este contrato apresenta-se como um exemplo bastante peculiar, devido aos constrangimentos que Vaz Monteiro, ciente da fragilidade dos sobreiros que acabara de arrendar, conseguiu impor à Henry Bucknall & Sons ao nível das melhores práticas suberícolas da época. Mas essa é uma história que ficará, para já, por contar.    

P.S. - Texto publicado na edição de Janeiro do periódico local Arauto de Montargil.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Produção Alentejana de cortiça, em 1905, discriminada por concelho

Algumas das principais problemáticas do meu projeto de doutoramento serão estudadas a partir dos registos notariais dos concelhos alentejanos com maior produção florestal e industrial de cortiça. É a partir da informação contida neste tipo de fontes que procurarei resolver as problemáticas relativas ao funcionamento do mercado da terra, entre as quais saliento a análise detalhada dos contratos de arrendamento e/ou de venda de cortiça.





Os conteúdos dos registos notariais encerram ainda informações sobre o estabelecimento de sociedades comerciais e industriais, pelo que também possuem algum potencial na caracterização da indústria corticeira presente no Alentejo. Já relacionado somente com a problemática da deslocalização industrial e das estratégias empresariais, estes registos permitir-me-ão determinar a constituição (ou não) de redes de informação sustentadas pelas empresas, através do recurso a colaboradores no terreno. Toda esta importante documentação encontra-se disponível para consulta nos diversos Arquivos Distritais da região Alentejana – Portalegre, Setúbal, Évora e Beja.


No entanto, sendo impossível consultar todos os concelhos, há que fazer uma escolha. Assim, estou-me a centrar num conjunto selecionado de municípios do espaço alentejano. Este não são mais do que o «TOP 10» em termos de produção de cortiça aos quais se juntam, pelo facto de se terem constituído como importantes centros industriais de cortiça, os concelhos de Portalegre (sede da Robinson Cork Grewers, Ltd.), e de Estremoz (sede da Sociedade Nacional de Cortiças, propriedade da família Reynolds).

Deixo-vos, por mera curiosidade, essa lista.

Produção Alentejana de cortiça discriminada por concelho (1905)


Fonte: Arquivo Nacional da Torre do Tombo/ Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria/ Direcção-Geral de Agricultura/ NP 952/ Documento 10.

Legenda: A castanho os concelhos em que estou a pesquisar (ou pesquisarei) os respetivos registos notariais.

Nota: Veja-se como, em 1941, Ponte de Sor já tinha ultrapassado muitos dos concelhos que aqui ainda se encontravam à sua frente: http://sobreaponte.blogspot.pt/2012/11/concelhos-com-maior-producao-de-cortica.html

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Um mercado que não reage? A transformação industrial de cortiça em Portugal (1870-1930)

A exportação de cortiça em Portugal, ao contrário do que se poderia pensar do maior produtor mundial de cortiça, privilegiava a venda da matéria-prima em bruto ou semitransformada, com pouco ou nenhum valor acrescentado, em detrimento da exportação de cortiça transformada, de elevado valor acrescentado. Como exemplo, posso adiantar que, entre 1867 e 1933, um quilograma de cortiça transformada foi vendido por um valor entre 2 a 5 vezes superior ao da cortiça em bruto ou semitransformada.

Gráfico 1 - Rácio do valor de cortiça transformada/cortiça semitransformada ou em bruto 


Ainda assim, a percentagem de cortiça transformada pela indústria nacional cresceu, neste período, mas de forma muito lenta. Aliás, como se pode verificar no gráfico anterior, o preço da cortiça transforma mostrou uma tendência de crescimento, não obstantes diversas oscilações, superior à matéria-prima semitransformada ou em bruto.


Na realidade, a indústria corticeira portuguesa parece ter reagido muito lentamente à subida de preço da cortiça transformada, já que a correlação entre o preço desta e percentagem de cortiça transformada no total das exportações portuguesas é de 0,15. Ou seja, existe uma fraca ligação entre a valorização da cortiça e a sua transformação industrial em terras lusas.

Fica a pergunta: porque é que os agentes económicos não reagiram ao mercado?

terça-feira, 14 de maio de 2013

O Mercado florestal de cortiça do Alto Alentejo e Extremadura (1830-1910)


Na próxima sexta-feira, dia 17 de Maio, participarei no II Encontro de História Contemporânea que se realizará na Universidade de Évora. A minha sessão está prevista para as 15h30, conforme o programa do encontro

O texto que irei apresentar conjuntamente com o meu amigo Francisco Parejo Moruno da Universidad de Extremadura, pode ser encontrado aqui. Este, no entanto, constitui apenas uma primeira investigação neste tema, como, aliás, nós explicamos, pelo que as principais questões de carácter empresarial estão ainda por explorar.

Produção regional de cortiça (1905)

Nota: O Distrito de Lisboa compreendia à época todo a área que viria a ser, a partir de 1926, o Distrito de Setúbal. Desta forma fica explicado a produção tão elevada deste distrito.

Já a Ana Isabel irá também participar, mas no dia anterior, com uma comunicação relacionada com a assistência no distrito de Portalegre, no século XIX, fruto das suas investigações.


quarta-feira, 20 de março de 2013

Balanço do primeiro «Café com Letras» - negócio corticeiro norte-alentejano

              No passado dia 16 de Março teve lugar, na Fábrica do Arroz, em Ponte de Sor, o primeiro de quatro encontros previstos para o ano de 2013, denominados «Café com Letras». A organização destes eventos está a cargo do núcleo de Ponte de Sor da Associação Nova Cultura, sendo coordenados por Carlos Manuel Faísca. Nesta primeira sessão discutiu-se o «negócio corticeiro norte-alentejano», a partir das intervenções do próprio Carlos Manuel Faísca, doutorando em História Económica, no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, sob a orientação do economista Pedro Lains, e de Pedro Mourisco, mestrando em Empreendedorismo no Instituto Politécnico de Portalegre.

(Carlos Manuel Faísca. Foto de Aníbal Oliveira)

            O primeiro comunicante, após explicar os motivos por detrás da vantagem comparativa no comércio internacional da cortiça portuguesa, abordou, numa perspetiva comparada, dois momentos cruciais do negócio corticeiro português: o seu arranque tardio no contexto europeu (1830-1914); e a ascensão de Portugal a líder mundial do setor corticeiro (1929-1960). Neste último ponto foram destacadas algumas causas estruturais para que Espanha, que gozava até então de uma posição hegemónica, tenha passado a deter um papel secundário, já que Portugal experienciou um rápido e vigoroso crescimento, graças ao qual conquistou todas as facetas deste negócio: florestal, industrial e comercial. Para o conseguir, existiu, entre outros fatores, um forte papel da política económica do Estado. Finalmente, foi também traçada a evolução regional e local deste setor, durante os últimos cento e oitenta anos.

(Pedro Mourisco. Foto de Aníbal Oliveira)

           Pedro Mourisco começou por salientar o difícil momento em que vive a economia portuguesa, com especial impacto nas regiões de interior. Por esse motivo, na sua opinião, cabe às populações locais trabalharem em conjunto para o desenvolvimento económico das regiões periféricas portuguesas já que, dificilmente, o governo central o fará. Em seguida, o segundo comunicante apresentou o seu projeto de living lab. Este consiste na criação e dinamização de um conceito estratégico para a região de Ponte de Sor, com base no Cluster de cortiça presente em Ponte de Sor. Após elucidar este último conceito, o jovem economista apresentou diversas ideias para a dinamização do Cluster de Ponte de Sor, que incluíram ainda o papel que os principais os atores locais poderão ter neste tipo de projeto. Para o atingir, Pedro Mourisco recorreu a uma análise estratégica, que, entre outras ferramentas, utilizou uma Matriz Tows, de forma a criar condições desenvolvimento para região, bem como para atrair investimento neste Cluster. Por último, foram ainda levantadas várias questões: se existe uma aposta na formação relacionada com este Cluster? Se os poderes locais têm consciência deste Cluster? E qual é o futuro de Ponte de Sor?

            Após as duas apresentações, seguiu-se, durante aproximadamente uma hora, um intenso debate acerca do presente e do futuro desta atividade crucial na economia norte-alentejana, com diversos contributos vindos de uma audiência bastante heterogénea e que contou com cerca de três dezenas de participantes. As principais conclusões prenderam-se essencialmente com a necessidade de, por um lado, se apostar na formação profissional nesta área, tal como, no passado, a Junta Nacional de Cortiça (1936-1972) o fez; e, por outro, se inverter a política económica para o setor florestal que, infelizmente, parece querer apostar em espécies onde Portugal, ao contrário da cultura suberícola, não detém uma vantagem comparativa no comércio internacional.

(Assistência. Foto de Aníbal Oliveira)

            Saliente-se que, em relação à primeira questão, Fátima Pinheiro, professora da Escola Secundária de Ponte de Sor, adiantou que aquele estabelecimento de ensino propôs, no ano transato, a constituição de uma turma de formação profissional vocacionada para o setor da cortiça, contando, para esse efeito, com o apoio dos encarregados de educação dos cerca de 20 alunos interessados. Porém, o pedido foi recusado pelo Ministério da Educação. Conclui-se então que as autoridades centrais portuguesas não estão a prestar a devida atenção a uma das principais riquezas nacionais.   

            Os «Café com Letras» irão prosseguir, em Junho de 2013, abordando a desertificação do Alentejo, com a participação de Elisa Silva (ICS/UL), a partir do exemplo das tentativas de colonização interna da região, durante o Estado Novo; a emigração científica, com a participação de Tiago Brandão (IHC da FCSH/UNL), em Setembro de 2013, tendo como base o caso de Joaquim Barradas de Carvalho, com raízes familiares profundas no concelho de Ponte de Sor; e a desigualdade social e de rendimento, com a presença novamente de Carlos Manuel Faísca, agora acompanhado por Bruno Lopes (CIDEHUS da U. de Évora), em Novembro/Dezembro de 2013.

            No final, a organização fez ainda questão de convidar os presentes a assistirem ao ciclo «Encontros com a História 2013», promovido por Ana Isabel Silva, já que as duas iniciativas são complementares. A próxima sessão terá lugar em finais de Abril, no Centro de Artes e Cultura de Ponte de Sor, com o tema “150 anos da chegada do caminho-de-ferro a Ponte de Sor”.

domingo, 10 de março de 2013

O negócio corticeiro norte-alentejano - Ciclo de «Cafés com Letras» em Ponte de Sor

No próximo dia 16 de Março, pelas 21h30, na Fábrica do Arroz, em Ponte de Sor, realiza-se o primeiro «Café com Letras» organizado por mim e pelo núcleo de Ponte de Sor da Associação Nova Cultura.

Neste primeiro encontro discutir-se-á o negócio corticeiro norte-alentejano, que, desde meados do século XIX, se constituiu como um dos principais elementos da economia regional.


Serão realizadas realizadas duas breves comunicações como forma de introduzir o tema. A primeira, da minha autoria, prende-se com a evolução histórica deste setor. Porém, como pretendo não tomar demasiado tempo, decidi escolher três aspetos que me parecem dos mais importantes: o arranque «tardio» do negócio corticeiro em Portugal, marcado também por uma certa ambiguidade da política económica do Estado; a ascensão de Portugal a líder mundial deste setor, onde o Estado, através da ação da Junta Nacional de Cortiça, teve um papel de destaque; e, por último, a evolução da geografia da indústria corticeira. Em todos estes momentos haverá um especial destaque para o caso particular do Alto Alentejo.

A segunda intervenção prevista (porque esperamos que muitos queiram e venham a intervir) ficará a cargo de Pedro Mourisco. Este apresentará um projeto de um living lab corticeiro para o concelho de Ponte de Sor.

Este encontros têm o objetivo de contribuir para um debate cívico sobre temas que exercem uma grande influência no quotidiano pontessorense, pelo que apelamos à participação da população.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Expansão da área de montado de sobro: algumas dúvidas e problemas


Devido à crescente importância da exploração de cortiça, na segunda metade do século XIX, existiu um aumento da produção desta matéria-prima, ao qual correspondeu, naturalmente, uma expansão da área de sobreiros. Assim, no final de Oitocentos, a superfície de montado de sobro alentejano teria quase triplicado (MARTINS 2005, p. 246). 

Tem sido defendido que não existiu qualquer política pública de fomento florestal que favorecesse a expansão da área de montado de sobro, tendo a mesma cabido exclusivamente à iniciativa privada, adiantando-se ainda que os sobreiros vieram ocupar terrenos previamente incultos. Desta forma, o aumento da superfície de montado de sobro ter-se-ia feito essencialmente com recurso a pequenos investimentos, visto que os seus executantes se limitaram ao aproveitamento da regeneração natural do sobreiro, ao invés de recorrerem a técnicas mais exigentes como a sementeira ou a plantação (Mendes 2002, 46–49).

Este facto acaba por ser um pouco estranho, na minha opinião, devido, precisamente, ao peso que a cortiça  tinha, neste período, na economia portuguesa. Mas parece que poderá corresponder à realidade. Ontem, encontrei um relatório do Conselho Distrital de Agricultura de Beja, datado de 1904, que, após ter assinalado a produção de cortiça como uma das principais do distrito, sobretudo no concelho de Odemira, previa uma dotação orçamental significativa na aquisição de penisco (sementes de Pinheiro) para a florestação da Serra do Caldeirão, no concelho de Mértola.  

Será que, naquele solo específico, o sobreiro tem dificuldades de implantação? Na realidade, ao atendermos à produção de cortiça, em 1916, a verdade é que na região do Sudeste de Portugal - concelhos de Serpa, Mértola, Alcoutim, Castro Marim e Vila Real de Santo António -  a produção é quase nula, com exceção de Alcoutim, onde mesmo assim se afigura como bastante modesta. 

Figura 1 - Distribuição da produção concelhia de cortiça em Portugal (1916-18)



Neste caso, o mapa geral de Vieira Natividade tem de ser olhado meramente como indicativo e não como possuindo grande detalhe.

Figura 2 - Distribuição  "natural" do sobreiro 



Ou será que a exploração de madeira de pinho era também ela bastante lucrativa? Talvez, nas serranias de Mértola, o pinheiro tivesse uma melhor adaptação ao terreno. Por outro lado, o principal objetivo desta florestação era estabilizar o solo mertolense, permitindo que, no Inverno, a água das chuvas não provocasse inundações nos vales semeados, e, no Verão, que a humidade do solo não se evaporasse rapidamente. Será que o sobreiro não cumpre tão bem estas funções?

Mas mesmo que assim seja neste caso específico, a verdade é que o Estado investiu uma soma na sementeira florestal (50 mil réis), porque motivo não o fez em relação à principal produção florestal portuguesa da época? Ou será que o fez e o assunto está por investigar?

Por último, uma pergunta muito mais ambiciosa e geral. Revisitando o trabalho clássico de Jaime Reis (Reis 1993) será que, no caso do Estado (mas não só) ter apostado no aumento da produção corticeira, e, ao mesmo tempo, promovido a indústria corticeira portuguesa transformadora, poderia este setor ter conduzido à convergência da economia portuguesa com os países mais desenvolvidos, devido ao efeito de arrastamento das exportações corticeiras no conjunto global da economia nacional? O autor diz-nos que a produção deste matéria-prima teria que ser, no final do século XIX, consideravelmente maior para que isso pudesse acontecer, sendo que, neste período, já não restavam grandes quantidades de terrenos com condições apropriadas para o alargamento da superfície de montado de sobro. Assim, a extração de cortiça continuou a crescer, mas de forma lenta, atingido as 93 mil toneladas em 1913.

Porém, ela andou próxima das 200 mil toneladas no início dos anos 1950, ou seja, de alguma forma ela acabou por crescer bastante e não me parece (acho eu) que tenha existido, entretanto, alguma inovação técnica que tenha tornado possível plantar sobreiros em solos mais pobres. 

Será que, com uma política concertada desde meados do século XIX, teria sido possível chegar-se ao início do século XX com elevados níveis de produção, desencadeando o processo atrás referido? Mas a questão é um pouco mais complexa, já que o aproveitamento da cortiça de pior qualidade só se tornou possível com a diversificação de produtos industriais (entre os quais o aglomerado de cortiça) que a Portugal só chegaram já no século XX. Desta forma, talvez esta última questão seja, na realidade, uma falsa questão com pouca pertinência, ou talvez todas estas o sejam, mas é algo que terei que compreender, com a ajuda de quem percebe mais disto do que eu.

Bibliografia:


Martins, M.C. Andrade. 2005. «A agricultura». Em História Económica de Portugal, 1700-2000, by Pedro Lains e Álvaro Ferreira da Silva, Vol. II: O século XIX:219–259. Lisboa: ICS.

Mendes, Américo Carvalho. 2002. A economia do sector da cortiça em Portugal: Evolução das actividades de produção e de transformação ao longo dos séculos XIX e XX. Working Paper. Porto: Universidade Católica Portuguesa.

Natividade, J. Vieira. 1950. Subericultura. Lisboa: Ministério da Economia - Direcção-Geral dos Serviços Florestais e Aquícolas.

Reis, Jaime. 1993. O atraso económico português em perspectiva histórica : estudos sobre a economia portuguesa na segunda metade do século XIX, 1850-1930. Lisboa: Impr. Nacional Casa da Moeda.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Produção Florestal de Cortiça em Ponte de Sor e algumas novidades para 2013


Em Portugal, o negócio corticeiro conheceu o seu período mais florescente durante o século XX, especialmente entre as décadas de 1930 e 1960. Neste espaço de tempo, por um lado, registou-se o progressivo abandono desta actividade por parte dos países não produtores de matéria-prima (Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, etc.), e, por outro, ocorreu uma quebra da actividade corticeira em Espanha. Perante este cenário, a indústria corticeira portuguesa cresceu e tornou-se líder mundial do setor, alterando-se a estrutura da indústria corticeira nacional que até então se dedicava mais à exportação de produtos em bruto ou semitransformados.

Ao mesmo tempo, a oferta nacional de matéria-prima cresceu, de uma média de cerca de 130 mil toneladas anuais até uma média de cerca de 180 mil toneladas, procurando, desta forma, a exploração florestal acompanhar as necessidades industriais. 

No caso concreto de Ponte de Sor, o século XX parece corresponder também a uma crescente importância  da produção florestal de cortiça, em termos absolutos, mas sobretudo em termos relativos. Assim, a ponderação da produção corticeira do concelho cresceu bastante a nível distrital e nacional. Para o ilustrar deixo um pequeno exemplo. Ora, se Ponte de Sor, em 1905, já era o maior produtor de cortiça do distrito de Portalegre contando com 18,1% da sua produção total, em 1945, essa ponderação cresceu para 31,3%, enquanto em 1975 atingia já os 45,5%.

Distribuição da produção nacional de cortiça


Esta brevíssima apresentação a este tema, extremamente lacunar em termos de análise e de apresentação de dados mensuráveis, serve de introdução para anunciar um conjunto de atividades que pretendemos realizar durante este ano de 2013.

Uma delas é realização de encontros periódicos subordinados a temas atuais de interesse regional, nacional e internacional, analisados a partir de uma perspetiva histórica de longa duração que se estende até aos nossos dias. Para esse efeito, para além de nós próprios, contaremos com a presença de jovens doutorandos e doutorados das principais universidades e centros de investigação portugueses, onde se pode incluir, por já se encontrarem confirmados, a Universidade de Évora, a Universidade Nova de Lisboa e o Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.   

Os temas escolhidos serão o negócio corticeiro alentejano, que ficará a meu cargo e da Ana Isabel; a colonização interna e a desertificação do interior, cujo convidado está ainda por confirmar; as desigualdades sociais e de rendimento no Alto Alentejo do Antigo Regime, onde partilharei as responsabilidades com um colega da Universidade de Évora. Por último, abordar-se-à a emigração científica, um tema bastante atual, a partir do exemplo de um insigne historiador, natural de Galveias, que se tornou num conhecido nome da historiografia portuguesa dos anos 1960/70. Esta apresentação, em princípio, ficará a cargo de um seu descendente, com o qual tive a sorte de partilhar os bancos da Universidade Nova de Lisboa, onde atualmente ele desenvolve o seu projeto de pós-doutoramento.

Faltam, contudo, muitas questões de ordem prática, mas este é um projeto que me empenharei por cumprir, não obstante a minha crónica falta de tempo, visto que o seu sucesso me dará um grande prazer pessoal. Creio que à Ana Isabel também.

Assim, quando tivermos notícias mais específicas, caso ele se venha a concretizar, anunciaremos as datas e o que se pretende com estes encontros.

Finalmente, este blog irá em breve passar a dispor de uma pequena apresentação curricular dos seus autores, bem como a disponibilização de alguns trabalhos, respeitando sempre o Código de Direitos de Autor, que se encontrem on-line.

Para já é tudo, espero que sintam tentados a participar nas nossas atividades.

P.S. - Entretanto se quiserem ler algo mais sobre a exploração de cortiça, aqui ficam algumas referências bibliográficas:

Branco, Amélia. 2005. «O Impacto das florestas no Crescimento económico moderno durante o Estado Novo (1930-1974)». Tese de Doutoramento, Lisboa: Universidade Técnica de Lisboa.

Fonseca, Helder Adegar. 1996. O Alentejo no século XIX : economia e atitudes económicas. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda.

Guimarães, Paulo. 2006. Elites e indústria no Alentejo (1890-1960) : um estudo sobre o comportamento económico de grupos de elite em contexto regional no Portugal contemporâneo. Lisboa: Edições Colibri : Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora.

Parejo Moruno, Francisco. 2009. «El negocio de exportación corchera en España y Portugal durante el siglo XX: cambios e intervención pública». Tese de Doutoramento, Badajoz: Universidad de Extremadura.

Pereda García, Ignacio, e Euronatura. 2009. Junta Nacional da Cortiça (1936-1972). Euronatura 2. Lisboa: Euronatura.

Zapata Blanco, Santiago. 2002. «Del suro a la cortiça: el ascenso de Portugal a primera potencia corchera del mundo». Revista de historia industrial (22): 109–137.




sábado, 1 de dezembro de 2012

Produção Industrial de Cortiça em Ponte de Sor e rendimentos do montado pontessorense (1952)

Há dias, no âmbito do projeto "Agriculture in Portugal: Food, Development and Sustainability (1870-2010)", dei comigo perante mais de 280 inquéritos agrícolas de florestais, elaborados nos anos 1950, de outros tantos concelhos de Portugal Continental. Tenho-os, provisoriamente, no gabinete que me foi cedido no ICS/UL. Aproveitei para dar uma vista de olhos nos relatórios dos concelhos que de alguma forma têm uma relação comigo. Infelizmente, os relatórios relativos a Tavira e Lisboa (se é que houve algum destinado à capital portuguesa) não constam deste lote. Ainda assim, tenho acesso aos relatórios do concelho de Ponte de Sor e Castro Marim.

Admito que estou impressionado com o nível de detalhe da informação que estes inquéritos contêm, pois são descritas minuciosamente todas as atividades florestais, a estrutura da propriedade agrícola, a ocupação do território, toda a produção agrícola, os níveis dos salários agrícolas, as indústrias existentes e....muito, mas MUITO mais!




Só sobre o setor corticeiro, o qual pretendo estudar para um período mais recuado (1834-1914), ficamos a saber a superfície de montado em cada concelho, a quantidade de cortiça extraída, a produção industrial concelhia e os lucros daí resultantes, entre outros aspetos. Imaginar que esta informação existe para todo o território nacional, dá-me quase vontade de alterar o âmbito cronológico da minha tese, mas não o farei. O setor corticeiro português conta já com diversos estudos para o seu período mais florescente, isto é, o século XX, e o mais estimulante é investigar em terreno menos explorado.

Deixo-vos aqui informação sobre a produção industrial de cortiça, no concelho de Ponte de Sor, em 1952, e também um outro quadro que demonstra como este produto era de longe o mais importante para a economia local.

Quadro 1 - Produção industrial de Cortiça em Ponte de Sor (1952)


Nome da Empresa
Produção (arrobas)
António Rodrigues Carrusca
70.000
Empresa Industrial de Pimentão
50.000
João Lobato
12.000
Joaquim Prates
35.000
José de Matos
25.000
Manuel de Sousa Eusébio
10.000
Mundet & Cª, Lda.
280.000
Total
482.000












Quadro 2 - Rendimento retirado dos montados do Concelho de Ponte de Sor (1952)





Produto
Valor
(contos)
Cortiça
27.307
Carne de Porco
3.786
Pastagem
483
Árvores abatidas
1.030
Despejos de poda
4.680
Total
37.286




P.S. 1 - Também existem informações sobre a Fábrica de Moagem e Descasque de Arroz cujo edíficio é hoje o Centro de Artes e Cultura, mas isso fica para uma outra oportunidade.

P.S. 2 - Se alguma entidade, individual ou coletiva, estiver interessada em apoair a publicação deste relatório, pode falar comigo que, caso não existam problemas legais com os direitos de autor, a equipa do projeto está interessada em fazê-lo.